Bíblia do CaminhoTestamento Kardequiano

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O Céu e o Inferno — 2ª Parte

ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS
(Édition Française)

Capítulo III

[Exemplo 6]

Srª ANNA BELLEVILLE

1 — Jovem mulher falecida aos trinta e cinco anos de idade, após cruel enfermidade. 2 Vivaz, espirituosa, dotada de inteligência rara, de meticuloso critério e eminentes qualidades morais; esposa e mãe de família devotada, ela possuía, ao demais, uma integridade de caráter pouco comum e uma fecundidade de recursos que a trazia sempre a coberto das mais críticas eventualidades da existência. 3 Sem guardar ressentimento das pessoas de quem poderia queixar-se, estava sempre pronta a prestar-lhes oportuno serviço. 4 Intimamente ligados à sua pessoa desde longos anos, pudemos acompanhar todas as fases da sua existência, bem como todas as peripécias do seu fim.

5 Proveio de um acidente a moléstia que havia de levá-la, depois de a reter três anos de cama, presa dos mais cruéis sofrimentos, aliás suportados até ao fim com uma coragem heroica, e a despeito dos quais a graça natural do seu Espírito jamais a abandonou. 6 Ela acreditava firmemente na existência da alma e na vida futura, mas pouco se preocupava com isso; todos os seus pensamentos se relacionavam com o presente, que muito lhe importava, posto não tivesse medo da morte e fosse indiferente aos gozos materiais, porque a sua vida era simples e sem sacrifício abria mão do que não podia obter; mas possuía inato o sentimento do bem e do belo, que apreciava até nas coisas mínimas. 7 Queria viver menos para si que para os filhos, avaliando a falta que lhes faria, e era isso que a prendia à vida. 8 Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo; interessava-se por ele, mas nunca pôde fixar as ideias sobre o futuro; este era para ela uma realidade, mas não lhe deixava no Espírito uma impressão profunda. 9 O que praticava de bom era o resultado de um impulso natural, espontâneo, sem ideia de recompensas ou de penas futuras.

10 De há muito era desesperador o seu estado e iminente o desenlace, circunstância que ela própria não ignorava. Um dia, achando-se ausente o marido, sentiu-se desfalecer e compreendeu que a hora era chegada; embaciando-se-lhe a vista, a perturbação a invadia, sentindo todas as angústias da separação. 11 Custava-lhe, contudo, a morte antes da volta do esposo. Fazendo supremo esforço sobre si mesma, murmurou: “Não, não quero morrer!” Então sentiu renascer-lhe a vida e recobrou o uso pleno das suas faculdades. 12 Quando o marido chegou, disse-lhe: “Eu ia morrer, mas quis aguardar a tua vinda, por isso que tinha algumas recomendações a fazer-te.” 13 Assim se prolongou a luta entre a vida e a morte por três meses ainda, tempo que mais não foi que dolorosa agonia.


2 Evocação no dia seguinte ao da morte. — Meus bons amigos, obrigada pelo interesse que vos mereço; demais, fostes para mim como bons parentes. Pois bem, regozijai-vos porque sou feliz. Confortai meu pobre marido e velai por meus filhos. Eu segui logo para junto deles, depois que desencarnei.


1. Podemos supor que a vossa perturbação não foi longa, uma vez que nos respondeis com lucidez.

R. Ah! meus amigos, eu sofri tanto… e vós bem sabeis que sofria com resignação. Pois bem! a minha provação está concluída. 2 Não direi que esteja completamente libertada, não; mas o certo é que não sofro mais, e isso para mim é um grande alívio! 3 Desta feita estou radicalmente curada, porém, preciso ainda do auxílio das vossas preces para vir mais tarde colaborar convosco.


2. Qual poderia ser a causa dos vossos longos sofrimentos?

R. Um passado terrível, meu amigo.


3. — Podeis revelar-nos esse passado?

R. Oh! deixai que o esqueça um pouco… paguei-o tão caro…


3 Um mês depois da morte. — 1. Agora que deveis estar completamente desprendida e que melhor nos reconheceis, muito estimaríamos ter convosco uma palestra mais explícita. Podereis, por exemplo, dizer-nos qual a causa da vossa prolongada agonia? Estivestes durante três meses entre a vida e a morte.

R. Obrigada, meus amigos, pela vossa lembrança como pelas vossas preces! 2 Quão salutares me foram estas, e como concorreram para a minha libertação! 3 Tenho ainda necessidade de ser confortada; continuai a orar por mim. Vós compreendeis o valor da prece. 4 As que dizeis não são de modo algum fórmulas banais, como as murmuradas por tantos outros que lhes não medem o alcance, o fruto de uma boa prece.

5 “Sofri muito, porém os meus sofrimentos foram largamente compensados, sendo-me permitido estar muitas vezes perto dos queridos filhos, que deixei com tanto pesar!

6 “Prolonguei por mim mesma esses sofrimentos; o desejo ardente de viver, por amor dos filhos, fazia com que me agarrasse de alguma sorte à matéria, e, ao contrário dos outros, eu não queria abandonar o desvalido corpo com o qual era forçoso romper, se bem que ele fosse para mim o instrumento de tantas torturas. Eis aí a razão da minha longa agonia. 7 Quanto à moléstia e aos padecimentos decorrentes, eram expiação do passado — uma dívida a mais, que paguei.

8 Ah! meus bons amigos, se eu vos tivesse ouvido, quanta mudança na minha vida atual! Que alívio experimentaria nos últimos momentos, e quão fácil teria sido a separação; se em vez de a contrariar eu me tivesse abandonado confiadamente à vontade de Deus, à corrente que me arrastava! Mas, em lugar de volver os olhos ao futuro que me aguardava, eu apenas via o presente que ia deixar!

9 “Quando houver de voltar à Terra, serei espírita, vo-lo afirmo. 10 Que ciência sublime! Assisto constantemente às vossas reuniões e aos conselhos que vos são transmitidos. Se eu, quando na Terra, pudesse compreendê-los, os meus sofrimentos teriam sido atenuados. A ocasião não tinha chegado. 10 Hoje compreendo a bondade e a justiça de Deus, conquanto me não encontre suficientemente adiantada para despreocupar-me das coisas da vida; meus filhos principalmente me atraem, não mais para amimá-los, porém para velar por eles, inculcando-lhes o caminho que o Espiritismo traça neste momento. Sim, meus bons amigos, eu tenho ainda graves preocupações, entre as quais avulta aquela da qual depende o futuro dos meus filhos.”


2. Podeis ministrar-nos quaisquer informações sobre o passado que deplorais?

R. Ah! meus bons amigos, estou pronta a confessar-me. Eu tinha desprezado o sofrimento alheio, vendo indiferente os sofrimentos da minha mãe, a quem chamava doente imaginária. Por não vê-la de cama, supunha que não sofresse e zombava dos seus queixumes. Eis como Deus castiga.


4 Seis meses depois da morte. — P. Agora que um tempo assaz longo se passou desde que deixastes o invólucro material, tende a bondade de descrever-nos a vossa posição e ocupações no mundo espiritual.

R. Na vida terrestre, eu era o que vulgarmente se chama uma boa pessoa; antes de tudo, porém, prezava o meu bem-estar; compassiva por índole, talvez não fosse capaz de penoso sacrifício para minorar um infortúnio. 2 Hoje, tudo mudou, e posto seja sempre a mesma, o eu de outrora modificou-se. 3 Ganhei com a modificação e vejo que não há nem categorias nem condições além do mérito pessoal, no mundo dos invisíveis, onde um pobre caridoso e bom se sobreleva ao rico que humilhava com a sua esmola. 4 Velo especialmente pelos que se afligem com tormentos familiares, com a perda de parentes ou de fortuna. A minha missão é reanimá-los e consolá-los, e com isso me sinto feliz.

Anna


5 — Importante questão decorre dos fatos supramencionados. Hei-la:

Poderá uma pessoa, por esforço da própria vontade, retardar o momento de separação da alma do corpo?

Resposta do Espírito São Luís. — Resolvida afirmativamente, sem restrições, esta questão poderia dar lugar a consequências falsas. 2 Certamente, em dadas condições, pode um Espírito encarnado prolongar a existência corporal a fim de terminar instruções indispensáveis, ou, ao menos, por ele como tais julgadas — é uma concessão que se lhe pode fazer, como no caso vertente, além de muito outros exemplos. 3 Esta dilação de vida não pode, porém deixar de ser breve, visto como é defeso ao homem inverter a ordem das leis naturais, bem como retornar de moto próprio à vida, desde que ela tenha atingido o seu termo; 4 é uma sustação momentânea apenas. 5 Preciso é no entanto, que da possibilidade do fato não se conclua a sua generalidade, tampouco que dependa de cada qual prolongar por este modo a sua existência. 6 Como provação para o Espírito ou no interesse de missão a concluir, os órgãos depauperados podem receber um suplemento de fluido vital que lhes permita prolongar de alguns instantes a manifestação material do pensamento; estes casos são excepcionais e não fazem regra. 7 Tampouco se deve ver nesse fato uma derrogação de Deus à imutabilidade das suas leis, mas apenas uma consequência do livre arbítrio da alma que, no momento extremo, tem consciência de sua missão e quer, a despeito da morte, concluir o que não pôde até então. 8 Às vezes pode ser também uma espécie de castigo infligido ao Espírito duvidoso do futuro, esse prolongamento de vitalidade com o qual tem necessariamente de sofrer.

São Luís


6 — Poder-se-ia ainda admirar a rapidez relativa com que se desprendeu este Espírito, dado o seu apego à vida corpórea; cumpre, porém, considerar que tal apego nada tinha de material nem sensual, antes possuindo mesmo a sua face moral, motivada como era pelas necessidades dos filhos ainda tenros. 2 Enfim, era um Espírito adiantado em inteligência e moralidade. Por mais um grau, e poder-se-ia considerá-lo um dos Espíritos dos mais felizes. 3 Não havia, portanto, nos laços perispiríticos a tenacidade resultante da identificação material; pode dizer-se que a vida, debilitada por longa enfermidade, apenas se prendia por tênues fios, que ele desejava impedir se rompessem. 4 Contudo, a sua resistência foi punida com a dilação dos sofrimentos concernentes à própria moléstia e não com a dificuldade do desprendimento. Assim, realizado este, eis por que a perturbação foi breve.

5 Um outro fato igualmente importante decorre desta, como da maior parte das evocações feitas em épocas diversas, mais ou menos distantes da morte: é a transformação gradual das ideias do Espírito, cujo progresso se traduz, não por melhores sentimentos, mas por uma apreciação mais justa das coisas. 6 O progresso da alma na vida espiritual é, portanto, um fato demonstrado pela experiência. A vida corporal é a praticagem desse progresso, a demonstração das suas resoluções, o cadinho em que ele se depura.

7 Desde que a alma progride depois da morte, a sua sorte não pode ser irrevogavelmente fixada, porquanto a fixação definitiva da sorte é, como já o dissemos, a negação do progresso. E não podendo coexistir simultaneamente as duas coisas resta a que tem por si a sanção dos fatos e da razão.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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