Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano IX — Abril de 1866

(Édition Française)

Uma visão de Paulo I

(Sumário)

1 — O czar Paulo I, que então era apenas o grão-duque Paulo, encontrando-se numa reunião com alguns amigos, em Bruxelas,  †  onde falavam de fenômenos considerados sobrenaturais, narrou o seguinte fato:  n


“Uma tarde, ou antes, uma noite, eu estava nas ruas de São Petersburgo,  †  com Kourakin e dois criados. Ficamos muito tempo a conversar e a fumar e nos veio a ideia de sair do palácio, incógnitos, para ver a cidade ao luar. Não fazia frio e os dias se alongavam; era um desses momentos mais suaves de nossa primavera, tão pálida em comparação com as do Sul. Estávamos alegres; não pensávamos em nada de religioso, nem mesmo sério, e Kourakin me dizia mil anedotas sobre os raros transeuntes que encontrávamos. Eu andava à frente, embora um dos nossos me precedesse; Kourakin ficava alguns passos atrás e o outro doméstico nos seguia um pouco mais longe. A lua estava clara, a ponto de se poder ler uma carta, e as sombras, por oposição, eram longas e espessas.

“Ao virar uma rua percebi, no vão de uma porta, um homem alto e magro, envolto num manto, como um espanhol, com um chapéu militar desabado sobre os olhos. Parecia esperar, e desde que passamos à sua frente, saiu de seu refúgio e se postou à minha esquerda, sem dar uma palavra, sem fazer um gesto. Era impossível distinguir seus traços; apenas os seus passos, esbarrando nas lajes, produziam um som estranho, semelhante ao de uma pedra que bate em outra. A princípio fiquei admirado com esse encontro; depois, pareceu-me que todo o lado que ele quase tocava se esfriava pouco a pouco. Senti um calafrio glacial penetrar meus membros e, voltando-me para Kourakin, disse-lhe:

“Eis um singular companheiro que temos! — Que companheiro? perguntou ele. — Mas este que marcha à minha esquerda e que faz muito barulho, creio.

“Kourakin abriu os olhos espantados e garantiu-me que à minha esquerda não via ninguém. — Como! não vês à minha esquerda um homem com manto, entre mim e a parede? — Vossa Alteza toca a própria parede e não há lugar para ninguém entre vós e a parede.

“Estirei um pouco o braço e, com efeito, senti a pedra. Contudo, o homem lá estava, sempre marchando com o mesmo passo de martelo, regulado pelo meu. Então o examinei atentamente e vi brilhar sob o chapéu, de forma singular, como disse, o olho mais cintilante que jamais encontrei. Este olho me olhava, me fascinava; eu não podia fugir de seu raio. Ah! disse eu a Kourakin, não sei o que sinto, mas é estranho!

“Eu tremia, não de medo, mas de frio. Pouco a pouco sentia o coração tomado por uma impressão que nada pode traduzir. Meu sangue congelava nas veias. De repente uma voz cavernosa e melancólica saiu desse manto que ocultava a sua boca e me chamou pelo nome: “Paulo!” Respondi maquinalmente impelido não sei por que força: “Que queres?” — “Paulo!” repetiu ele. E desta vez o acento era mais afetuoso e mais triste ainda. Nada repliquei, esperei, ele me chamou de novo e em seguida parou simplesmente. Fui constrangido a fazer o mesmo. “Paulo! pobre Paulo! pobre príncipe!”

“Virei-me para Kourakin, que também havia parado. “Ouves?” perguntei-lhe — “Nada absolutamente, senhor; e vós?” Quanto a mim eu escutava; o lamento ainda ressoava aos meus ouvidos. Fiz um esforço imenso e perguntei a esse ser misterioso quem era e o que queria. “Pobre Paulo! quem sou eu? Sou aquele que se interessa por ti. O que quero? quero que não te ligues muito a este mundo, pois aí não ficarás muito tempo. Vive como justo, se desejares morrer em paz; e não desprezes o remorso: é o suplício mais pungente das grandes almas.”

“Retomou seu caminho, olhando-me sempre com aquele olho que parecia destacar-se da cabeça e, assim como eu tinha sido forçado a parar como ele, fui forçado a andar como ele. Não me falou mais, nem senti vontade de lhe dirigir a palavra. Eu o seguia, pois era ele quem dirigia a marcha, e essa corrida durou ainda mais de uma hora, em silêncio, sem que eu pudesse dizer por onde havia passado. Kourakin e os lacaios não chegavam. Olhai-o sorrindo: ele ainda pensa que sonhei tudo isto.

“Finalmente, nós nos aproximamos da Grande Praça,   †  entre a ponte do Neva  †  e o Palácio dos Senadores. O homem foi direto para um ponto dessa praça, seguido por mim, bem entendido, onde se deteve. “Paulo, adeus. Não me verás aqui, nem em outros lugares.” Depois, como se lhe tivesse tocado, seu chapéu ergueu-se de leve, sozinho; então eu distingui facilmente o seu rosto. Recuei, mau grado meu: era o olho de águia, era a fronte trigueira, o sorriso severo de meu avô Pedro, o Grande. Antes que me recobrasse da surpresa, de meu terror, ele havia desaparecido.

“É nesta mesma praça que a imperatriz manda erigir o monumento célebre, que logo causará admiração em toda a Europa, e que representa o czar Pedro a cavalo. Um imenso bloco de granito é a base desta estátua. Não fui eu quem designou à minha mãe aquele lugar, escolhido, ou melhor, adivinhado previamente pelo fantasma. E confesso que aí encontrando essa estátua, não sei que sentimento apoderou-se de mim. Tenho medo de ter medo, apesar de o príncipe Kourakin querer persuadir-me de que eu sonhei acordado, passeando pelas ruas. Lembro-me dos mínimos detalhes desta visão, pois foi uma visão, insisto em sustentar. Parece-me que ainda estou lá. Retornei ao palácio, alquebrado como se tivesse feito uma longa caminhada e literalmente gelado do lado esquerdo. Precisei de várias horas para me aquecer num leito muito quente e debaixo de cobertores.”


Mais tarde o grão-duque Paulo lamentou ter falado desta aventura e se esforçou por fazê-la passar como pilhéria, mas as preocupações que ela lhe causou fizeram pensar que ela continha algo de sério.


2 — Depois de lido este fato na Sociedade de Paris, mas sem intenção de fazer qualquer pergunta a respeito, um dos médiuns, espontaneamente e sem evocação, obteve a comunicação seguinte:


(Sociedade de Paris, 9 de março de 1866 – Médium: Sr. Morin)

Na nova fase em que entrastes, com a chave dada pelo Espiritismo, ou revelação dos Espíritos, tudo deve explicar-se, pelo menos o que estais aptos a compreender.

A existência da mediunidade vidente foi a primeira de todas as faculdades conferidas ao homem para se corresponder com o mundo invisível, causa de tantos fatos até hoje deixados sem explicação racional. Com efeito, retornai às diferentes idades da Humanidade, e observai com atenção todas as tradições que chegaram até vós, e por toda parte, nas que vos precederam, encontrareis seres que, através da visão, foram postos em relação com o mundo dos Espíritos.

Em todos os tempos, em todos os povos, as crenças religiosas se estabeleceram sobre as revelações de visionários ou médiuns videntes.

Muito pequenos por si mesmos, os homens sempre foram assistidos por aqueles invisíveis que os tinham precedido na erraticidade e que, obedientes à lei de reciprocidade universal, lhes vinham trazer, por comunicações muitas vezes inconscientes, os conhecimentos por eles adquiridos, e lhes traçar a conduta a seguir para descobrir a verdade. '

Como disse, a primeira das faculdades mediúnicas foi a visão. Quantos adversários não encontrou ela entre os interessados de todos os tempos! Mas não se deveria inferir de minha linguagem que todas as visões sejam resultado de comunicações reais; muitas se devem à alucinação de cérebros enfraquecidos ou resultam de um complô urdido para servir a um cálculo ou satisfazer ao orgulho.

Crede-me, o médium vidente é, de todos, o mais impressionável; o que se viu grava-se melhor no espírito. Quando o vosso grão-duque,  n fanfarrão e vão como a maior parte dos de sua raça, viu aparecer-lhe o seu avô, pois era mesmo uma visão, que tinha sua razão de ser na missão que Pedro, o Grande, tinha aceitado em favor de seu neto, e que consistia em o conduzir e inspirar, desde esse instante a mediunidade foi permanente no duque e só o medo do ridículo o impediu de contar todas as visões ao seu amigo.

A mediunidade vidente não era a única que ele possuía; também tinha a intuição e a audição. Mas, muito imbuído dos princípios de sua primeira educação, recusou-se a tirar proveito das sábias advertências que lhe davam seus guias. Foi pela audição que teve a revelação de seu fim trágico. Desde essa época, seu Espírito progrediu muito. Hoje não temeria mais o ridículo de crer na visão e, por isto, vem dizer: “Graças aos meus caros instrutores espirituais e à observação dos fatos, creio na manifestação dos Espíritos, na sobrevivência da alma, na eterna onipotência de Deus, na progressão constante para o bem dos homens e dos povos e me tenho por muito honrado que uma de minhas puerilidades tenham provocado uma dissertação onde tenho tudo a ganhar e vós nada a perder.”


.Paulo n


[Vide também: Correspondência inédita de Lavater com a imperatriz Maria da Rússia, esposa de Paulo I]



[1] Extraído do Grand Journal, de 3 de março de 1866 e tirado de uma obra do Sr. Hortensius de [Alexandre de] Saint Albin, intitulada: O Culto de Satã.


[2] Vários russos assistiam à sessão na qual esta comunicação foi dada. Sem dúvida foi o que motivou a expressão: Vosso grão-duque.


[3] [v. Paulo I da Rússia ]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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