Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano X — Março de 1867.

(Édition Française)

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS.


Comunicação coletiva.

(Sociedade de Paris,  †  1º de novembro de 1866. – Médium: Sr. Bertrand.)
(Sumário)

1. — Como de hábito, estando a Sociedade reunida em 1º de novembro para a comemoração dos mortos, foram recebidas muitas comunicações, entre as quais sobretudo uma se distinguia por sua feitura completamente nova, e que consiste numa série de pensamentos avulsos, cada um assinado por um nome diferente, que se encadeiam e se completam uns pelos outros. Eis esta comunicação:

Meus amigos, quantos Espíritos em torno de vós, que gostariam de comunicar-se e dizer o quanto vos amam! E como seríeis felizes se o nome de todos os que vos são caros fosse pronunciado à mesa dos médiuns! Que felicidade! que alegria para cada um de vós, se vosso pai, vossa mãe, vosso irmão, vossa irmã, vossos filhos e vossos amigos viessem falar convosco! Mas compreendeis que é impossível sejais todos satisfeitos: o número de médiuns não é suficiente. Mas o que não é impossível é que um Espírito, em nome de todos os vossos parentes e amigos, venha dizer-vos: Obrigado por vossa boa lembrança e por vossas fervorosas preces; coragem! tende esperança de que um dia, depois da vossa libertação, viremos todos vos estender a mão. Ficai certos de que o que vos ensina o Espiritismo é o eco das leis do Todo-Poderoso; pelo amor tornai-vos todos irmãos, e aliviareis o fardo pesado que carregais.


2. — Agora, caros amigos, todos os vossos Espíritos protetores virão trazer-vos o seu pensamento. Tu, médium, escuta e deixa teu lápis seguir suas ideias.


1. A Medicina faz o que fazem os lagostins espantados. — Dr. Demeure.

2. Porque o magnetismo progride e, progredindo, esmaga a medicina atual, para a substituir proximamente. — Mesmer.

3. A guerra é um duelo que só cessará quando os combatentes tiverem forças iguais. — Napoleão.

4. Forças iguais material e moralmente. — General Bertrand.  † 

5. A igualdade moral reinará quando o orgulho for destituído. — General Brune.  † 

6. As revoluções são abusos que destroem outros abusos. — Luís XVI.

7. Mas esses abusos fazem nascer a liberdade. — (Sem nome.)

8. Para serem iguais é preciso que sejam irmãos. Sem fraternidade, nenhuma igualdade e nenhuma liberdade. — Lafayette.

9. A Ciência é o progresso da inteligência. — Newton.

10. Mas o que lhe é preferível é o progresso moral. — Jean Reynaud.

11. A Ciência ficará estacionária até que a moral a tenha atingido. — François Arago.

12. Para desenvolver a moral é preciso, antes, extirpar o vício. — Béranger.

13. Para extirpar o vício é preciso desmascará-lo. — Eugène Sue.

14. É o que todos os Espíritos fortes e superiores procuram fazer. — François Arago.

15. Três coisas devem progredir: a música, a poesia, a pintura. A música transporta a alma ferindo o ouvido. — Meyerbeer.

16. A poesia transporta a alma abrindo o coração. — Casimir Delavigne.

17. A pintura transporta a alma afagando os olhos. — Flandrin.

18. Portanto a poesia, a música e a pintura são irmãs e se dão as mãos; uma para adoçar o coração, a outra para abrandar os costumes e a última para abrir a alma; as três para vos elevar ao Criador. — Alfred de Musset.

19. Mas nada, nada deve progredir mais momentaneamente do que a filosofia; ela deve dar um passo imenso, deixando estacionar a Ciência e as artes, mas para as elevar tão alto, quando for tempo, porque essa elevação seria muito súbita para vós hoje. Em nome de todos, São Luís.


3. — No dia 6 de dezembro o Sr. Bertrand recebeu, no grupo do Sr. Desliens, uma comunicação do mesmo gênero, que, de certo modo, é continuação da precedente:


1. O amor é uma lira cujas vibrações são acordes divinos. — Heloísa.

2. O amor tem três cordas em sua lira: a emanação divina, a poesia e o canto; se faltar uma delas, os acordes serão imperfeitos. — Abelardo.

3. O amor verdadeiro é harmonioso; suas harmonias inebriam o coração, elevando a alma. A paixão afoga os acordes, rebaixando a alma. — Bernardin de Saint-Pierre.

4. Era o amor que Diógenes buscava, procurando um homem… que veio alguns séculos mais tarde, e que o ódio, o orgulho e a hipocrisia crucificaram. — Sócrates.

5. Os sábios da Grécia por vezes o foram mais nos escritos e nas palavras que em sua pessoa. — Platão.

6. Ser sábio é amar; busquemos, pois, o amor pelo caminho da sabedoria. — Fénelon.

7. Não sabeis ser sábios se não souberdes vos elevar acima da maldade dos homens. — Voltaire.

8. Sábio é aquele que não acredita sê-lo. — Corneille.

9. Quem se julga pequeno é grande; quem se julga grande é pequeno. — Lafontaine.

10. O sábio julga-se ignorante e quem se julga sábio é ignorante. — Esopo.

11. A humildade ainda se crê orgulhosa e quem se crê humilde não o é. — Racine.

12. Não confundais com os humildes os que dizem, por falsa modéstia, ou por interesse, o contrário do que são. Erraríeis. No caso a verdade silencia. — Bonnefond.

13. O gênio se possui por inspiração e não se adquire; Deus quer que as maiores coisas sejam descobertas ou inventadas por seres sem instrução, a fim de paralisar o orgulho, tornando o homem solidário do homem. — François Arago.

14. Só tratam de loucos aqueles cujas ideias não são chanceladas pela autoridade da Ciência; é assim que os que julgam tudo saber, rejeitam os pensamentos de gênio dos que nada sabem. — Béranger.

15. A crítica é o estimulante do estudo, mas é a paralisação do gênio. — Molière.

16. A ciência aprendida não passa de um esboço da ciência inata; não se torna inteligência senão na nova encarnação. — J. J. Rousseau.

17. A encarnação é o sono da alma; as peripécias da vida são os seus sonhos. — Balzac.

18. Às vezes a vida é horroroso pesadelo para o Espírito e muitas vezes custa a terminar. — La Rochefoucault.

19. Aí está sua prova; se resiste, dá um passo para o progresso; senão entrava o caminho que deve conduzir ao porto. — Martin.

20. Ao despertar da alma que saiu vitoriosa das lutas terrenas, o Espírito está maior e mais elevado; se sucumbir, encontra-se tal qual estava. — Pascal.

21. É renegar o progresso querer que a língua seja emblema da imutabilidade de uma doutrina religiosa; além disso, é forçar o homem a orar mais com os lábios que com o coração. — Descartes.

22. A imutabilidade não reside na forma das palavras, mas sobretudo no verbo do pensamento. — Lamennais.

23. Jesus dizia aos seus apóstolos que fossem pregar o Evangelho em sua língua, e que todos os povos os compreenderiam. — Lacordaire.

24. A fé desinteressada faz milagres. — Boileau.

25. A doutrina de Jesus não se sente nem se compreende senão pelo coração; assim, seja qual for a maneira por que a falam, ela é sempre o amor e a caridade. — Bossuet.

26. As preces ditas ou escritas que não se compreende, deixam vagar o pensamento, permitindo que os olhos se distraiam pelo fausto das cerimônias. — Massillon.

27. Tudo mudará, sem, contudo, voltar à simplicidade de outrora, o que seria a negação do progresso. As coisas se farão sem fausto e sem orgulho. — Sibour.

28. O amor triunfará e, com ele, virão a sabedoria, a caridade, a prudência, a força, a Ciência, a humildade, a calma, a justiça, o gênio, a tolerância, o entusiasmo e a glória majestosa e divina esmagará, por seu esplendor, o orgulho, a inveja, a hipocrisia, a maldade e o ciúme, que arrastam no seu séquito a preguiça, a gula e a luxúria. — Eugène Sue.

29. O amor reinará; e, para que não tarde, é preciso, como Dionísio, tomar com uma mão o facho do Espiritismo e mostrar aos humanos os vermes roedores que formam a chaga em sua alma. — São Luís.


4. Observação. – Este gênero de comunicação levanta uma questão importante. Como os fluidos de tão grande número de Espíritos podem assimilar-se quase instantaneamente com o fluido do médium, para lhe transmitir seu pensamento, quando muitas vezes essa assimilação é difícil da parte de um único Espírito, e geralmente não se estabelece senão com o tempo?


O guia espiritual do médium parece tê-lo previsto, porque dois dias depois lhe deu, espontaneamente, a seguinte explicação:

“A comunicação que recebestes no dia de Todos os Santos, assim como a última, que é o seu complemento, embora haja nomes repetidos, foram obtidas da seguinte maneira: como sou teu Espírito protetor, meu fluido é similar ao teu. Coloquei-me acima de ti, transmitindo-te o mais exatamente possível os pensamentos e os nomes dos Espíritos que desejavam manifestar-se. Eles formaram em torno de mim, uma assembleia cujos membros ditavam, alternadamente, os pensamentos que eu te transmitia. Isto foi espontâneo e o que naquele dia tornava as comunicações mais fáceis é que os Espíritos presentes tinham saturado o apartamento com seus fluidos.

“Quando um Espírito se comunica a um médium, fá-lo com tanto mais facilidade quanto melhor estabelecidas entre eles as relações fluídicas, sem o que o Espírito é obrigado, para comunicar seu fluido ao médium, a estabelecer uma espécie de corrente magnética, que alcança o cérebro deste último; e se o Espírito, em razão de sua inferioridade, ou por qualquer outra causa, não pode estabelecer esta corrente, recorre à assistência do guia do médium, e as relações se estabelecem como acabo de indicar.”


Slener.


5. — Uma outra pergunta é esta: No número destes Espíritos não há alguns encarnados neste e em outros mundos e, neste caso, como podem comunicar-se? Eis a resposta que foi dada:

“Os Espíritos de um certo grau de adiantamento têm uma irradiação que lhes permite comunicar-se simultaneamente em vários pontos. Nalguns, o estado de encarnação não amortece essa radiação de maneira bastante completa para os impedir de se manifestarem, mesmo em vigília. Quanto mais avançado o Espírito, tanto mais fracos são os laços que o unem à matéria do corpo; está num estado de quase constante desprendimento e se pode dizer que está onde está o seu pensamento.”


Um Espírito.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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