Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


4n

Casimiro Cunha


1

A VITÓRIA

  1 Pedes mapas e instruções

  Para o caminho a trilhar.

  Entretanto, onde estiveres,

  O roteiro é trabalhar.


  2 Escalas monte espinhoso

  No desejo de avançar…

  Há pedras cerrando a frente?

  A mudança é trabalhar.


  3 Alegas tédio invencível

  Da cabeça ao calcanhar;

  Mas todo enfado se extingue:

  A fórmula é trabalhar.


  4 Lamentas incompreensões, n

  No seio do próprio lar.

  Toda mágoa foge e cessa.

  O recurso é trabalhar.


  5 Dizes notar tentações

  Na ideia, no chão, no ar… n

  Mas, hoje, podes ser livre.

  A defesa é trabalhar.


  6 Transportas na alma intranquila

  A dor de antigo pesar…

  Qualquer aflição tem cura.

  O remédio é trabalhar.


  7 Acusas-te perseguido,

  Afirmas-te sem lugar…

  Renova-te e sê feliz.

  A melhora é trabalhar.


  8 Problemas são sempre muitos…

  Não te ponhas a indagar.

  A vida responde certo.

  O preceito é trabalhar.


  9 O próprio Cristo na cruz,

  A sofrer e desculpar,

  Ensina, que, em toda luta,

  A vitória é trabalhar.


2

BOCADOS

  1 Serve com desinteresse

  A quem serve ao deus-dará.

  Quem dá para receber,

  De fato, não deu nem dá.


*

  2 Ajudando aqui e ali,

  Sê bondoso e diligente.

  Auxilia duas vezes,

  Quem ajuda prontamente.


*

  3 Faze planos, mas trabalha

  Com fé, segurança e paz.

  Quem não marcha para a frente

  É sombra vagando atrás.


*

  4 Modera o temperamento,

  Seja na fala ou na escrita.

  O sábio conversa baixo,

  O bruto reclama e grita.


*

  5 Não faças do próprio ventre

  Caminho às trevas da prova.

  Aquele que come muito,

  Faz da boca a própria cova.


*

  6 Fala, ouve, age e reflete,

  Mas prossegue construindo.

  Há muita língua falando,

  E poucos braços agindo.


*

  7 Aquele que nada pensa,

  Realmente, não se cansa…

  Mas não chega a fazer nada,

  Nem nada na vida alcança.


3

SIMPLIFICA

  1 Clamas que o tempo está curto;

  Contudo, o tempo replica:

  — “Não me gastes sem proveito,

  Simplifica, simplifica.”


  2 É muita conta a buscar-te…

  Armazém, loja, botica…

  Aprende a viver com pouco,

  Simplifica, simplifica.


  3 Incompreensões, chicotadas? n

  Calúnia, miséria, trica?

  Não carregues fardo inútil,

  Simplifica, simplifica.


  4 Encontras no próprio lar

  Parente que fere e implica?

  Desculpa sem reclamar,

  Simplifica, simplifica.


  5 Se alguém te injuria em rosto,

  Se te espanca ou sacrifica,

  Olvida a loucura e segue…

  Simplifica, simplifica.


  6 Recebes dos mais amados

  Ofensa que não se explica?

  Esquece a lama da estrada,

  Simplifica, simplifica.


  7 Alegas duro cansaço,

  Queres casa imensa e rica;

  Foge disso enquanto é tempo,

  Simplifica, simplifica.


  8 Crês amparar a família

  Pelo vintém que se estica?

  Excesso cria ambição.

  Simplifica, simplifica.


  9 Dizes que o mundo é de pedra,

  Que as provas chegam em bica;

  Não deites limão nos olhos,

  Simplifica, simplifica.


  10 Recorres, em pranto, ao Mestre,

  Na luta que te complica,

  E Jesus pede em silêncio:

  Simplifica, simplifica. n


4

FATIAS

  1 Vigia teu próprio exemplo

  Na obra cristã de fato.

  Toda fonte de água pura

  Faz lobo sair do mato.


*

  2 Guarda humildade e modéstia

  Sem blasonar poderio.

  Alta cabeça orgulhosa

  — Coração triste e vazio.


*

  3 Foge a todo pessimismo

  Sorrindo ao pior encargo.

  Para o gosto corrompido,

  O próprio mel surge amargo.


*

  4 Quanto possível evita

  Cair nas teias do engano.

  Pela amostra apresentada

  Reconhecemos o pano.


*

  5 Observa o prato cheio,

  A refeição tem limite.

  Onde governa a razão

  Há metragem no apetite.


*

  6 Não menosprezes ninguém,

  Sê liberal na atenção.

  Leve fósforo inflamado

  Faz arder o quarteirão.


*

  7 Atende cada problema

  De espírito vigilante.

  Ninguém consegue assoprar

  E sorver no mesmo instante.


*

  8 Quem critica e fala muito,

  De amor e paz morre à mingua.

  Conserva, na própria boca,

  A prisão da própria língua.


5

FILOSOFANDO

  1 A quem saiba agradecer,

  Cumprindo voto e promessa,

  A vida entrega recursos

  Muito acima do que peça.


*

  2 Resguarda a ponderação

  Por bênção de cada dia.

  É no riso e na conversa

  Que a loucura principia.


*

  3 Foge ao luxo de sentir

  Preguiça, fastio e tédio.

  Quem desiste do trabalho

  É doente sem remédio.


*

  4 Elogia sobriamente

  Na palavra que desdobras.

  Se o fogo sai dos limites,

  Arrasa com as boas obras. n


*

  5 Muitos alcançam no mundo

  Dinheiro, glória e ciência,

  Mas pouca gente consegue

  A força da paciência.


*

  6 Estuda, ampara, semeia,

  Constrói, auxilia e emenda.

  Enquanto estás no serviço,

  Ninguém te vê na contenda.


*

  7 Ora e vigia. O perigo

  É maior no coração

  Da pessoa que se sente

  Distante da tentação.


*

  8 Abraça, na tolerância,

  Estrada, clima e dever.

  Jamais exijas dos outros

  O que não possas fazer.


CASIMIRO CUNHA — Órfão de pai aos sete anos, tendo cursada apenas as primeiras letras em escolas primárias, Casimiro Cunha, depois de haver perdido uma vista aos 14 anos, por acidente, cegou da outra aos 16. Adolescente, ainda, colaborou na imprensa vassourense. Desde que se tornou espírita confesso, estendeu aos periódicos espiritistas, principalmente ao Reformador, a sua produção poética. Foi um dos fundadores do Centro Espírita “Bezerra de Menezes”, de Vassouras. Mário Cis era o pseudônimo que ele comumente usava. Prefaciando o primeiro livro do poeta — Singelos —, M. Quintão chegou a afirmar que ele “fechara os olhos às misérias da Terra, para melhor entrever as belezas do Céu”. Jamais se lhe ouviu dos lábios um queixume, uma palavra de revolta. Era a resignação em pessoa. “Alma feita de luz,” — afirmou-o Armando Gonçalves (Colar de Pérolas, pág. CXXVI) — “é um dos mais vigorosos literatos que enchem de orgulho o torrão fluminense.” (Vassouras, Estado do Rio, 14 de Abril de 1880 — Vassouras, 7 de Novembro de 1914.)

BIBLIOGRAFIA:

a) do homem terreno: Singelos; Efêmeros; Aves Implumes; Pétalas; Perispíritos; Álbum de Delba, póstuma.

b) do poeta desencarnado: Cartas do Evangelho; Cartilha da Natureza; História de Maricota; Gotas de Luz — todas pelo médium Francisco Cândido Xavier; Juca Lambisca e Timbolão — pelos medianeiros desta Antologia.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Leia-se in-com-preen-sões, com sinérese.

[3] Ler no/ ar, em duas silabas.

[4] Leia-se in-com-preen-sões, com sinérese.

[5] Note-se a mestria com que o poeta se serviu do bordão: “Simplifica, simplifica.”

[6] Leia-se com as, em uma sílaba (Ectlípse).


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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