Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Libertação — André Luiz


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Em aprendizado

(Sumário)

1. De retorno a casa, com indisfarçável estranheza reparei que o nosso Instrutor não empreendia qualquer ataque em defesa da doente querida.

2 A jovem senhora, novamente metida no leito, semi-aniquilada, punha os olhos no ar vazio, absorvida de indefinível pavor.

3 Um dos insensíveis magnetizadores presentes, à insinuação de Saldanha, começou a aplicar energias perturbadoras ao longo dos olhos, torturando as fibras de sustentação. Não somente o cristalino, em ambos os órgãos visuais, denunciava fenômenos alucinatórios, mas também as artérias oculares revelavam-se sob fortes modificações.

4 Percebi a facilidade com que os seres perversos das sombras hipnotizam as suas vítimas, impondo-lhes os tormentos psíquicos que desejam.

5 Grossas lágrimas banhavam o rosto da enferma, traduzindo-lhe as agitações interiores.

Dilacerada, a mente aflita e sofredora tiranizava o coração que batia, precípite, imprimindo graves alterações em todo o cosmos orgânico.

6 Das complicadas operações sobre os olhos, o magnetizador passou a interessar-se pelas vias do equilíbrio e pelas células auditivas, carregando-as de substância escura, qual se estivesse doando combustível a um motor.

7 Margarida, ainda que o desejasse, agora não conseguiria erguer-se. Compacta emissão de fluidos tóxicos misturava-se à linfa dos canais semicirculares.

8 Terminada a esquisita intervenção, Saldanha dispensou os terríveis colaboradores, à exceção da dupla que se incumbia do hipnotismo, alegando que havia serviço em outra parte da cidade. Outros casos aguardavam a legião de Gregório, e Margarida, no parecer do chefe de tortura, já recebera suficiente material de prostração para trinta horas consecutivas.

9 Pouco a pouco, esvaziou-se a casa, semelhante agora a desprezada colmeia de maribondos vorazes. Contudo, aí permaneciam Saldanha, os dois magnetizadores, nós três e a coleção de mentes, em “formas ovóides”, ligadas ao cérebro da senhora flagelada.


2. A sós com o temível obsessor, Gúbio procurou sondar-lhe o íntimo, discretamente.

— Sem dúvida que a sua fidelidade aos compromissos assumidos, — declarou o nosso orientador, atencioso, — é bastante significativa.

2 E enquanto Saldanha sorria, envaidecidamente, continuou, de olhar penetrante e doce:

— Que razões teriam conduzido Gregório a conferir-lhe tão delicada missão?

3 — O ódio, meu amigo, o ódio! — Explicou o interpelado decidido.

— À senhora? — Aduziu Gúbio, indicando a doente.

— Não propriamente a ela, mas ao pai, juiz sem alma que me devastou o lar. Faz onze anos, precisamente, que a sentença cruel de um magistrado caiu sobre os meus descendentes, exterminando-os…

4 E, diante da expressão de real interesse que o nosso Instrutor deixava perceber, o infeliz continuou:

— Tão logo abandonei o corpo físico, premido por uma tuberculose galopante, revoltado com a pobreza que me lançara à extrema penúria, não pude afastar-me do ambiente doméstico. 5 Minha infortunada Iracema herdou-me um filho querido, a quem não pude legar qualquer recurso apreciável. Jorge e sua genitora passaram, desse modo, a enfrentar dificuldades e aflições que não posso relembrar sem imensa angústia. Operário em rude serviço braçal, meu filho não conseguia sustentar dignamente a casa, definhando-se-lhe a mãezinha em padecimentos continuados e sofridos em silêncio. 6 Ainda assim, Jorge contraiu núpcias, muito cedo, com uma colega de trabalho, que, a seu turno, lhe deu uma filhinha atormentada e sofredora. A vida corria desesperadamente para o lar subalimentado e desprotegido, quando certo crime, constituído de roubo e assassínio, sobreveio na organização em que meu desventurado rapaz trabalhava, e toda a culpa, em face de circunstâncias inextricáveis, recaiu sobre ele. Acompanhei-lhe a prisão imerecida e, sem qualquer recurso para ampará-lo, segui os interrogatórios infernais a que foi submetido, como se fora homicida vulgar. 7 Ora, eu que me anexara aos parentes, desde o instante horrível, para mim, da transição corporal, jamais me senti disposto à submissão. A experiência humana não me proporcionou tempo a estudos religiosos ou filosóficos. Habituei-me muito cedo à rebelião contra aqueles que gozam os benefícios do mundo em detrimento dos desfavorecidos da sorte e, reconhecendo que o túmulo não me revelara qualquer milagroso domínio, preferi a continuidade da vida em meu escuro pardieiro, onde a convivência de Iracema, através de profundos laços magnéticos, de algum modo me reconfortava… 8 Assisti, por isto, com indescritível terror, aos detestáveis acontecimentos. Humilhado, na minha condição de homem invisível para os encarnados, visitei chefias e repartições, autoridades e guardas, tentando encontrar alguém que me auxiliasse a salvar Jorge, inocente. Identifiquei o verdadeiro criminoso que, ainda agora, desfruta posição social invejável e tudo fiz, sem resultado, por clarear o processo oprobrioso. 9 Meu filho sofreu todo o gênero de atrocidades morais e físicas, castigado por um delito que não cometeu. Desanimado, por minha vez, de algo recolher de útil, junto aos carrascos policiais que chegaram a improvisar fantásticas confissões da vítima, procurei o juiz da causa, na esperança de interferir beneficamente. O magistrado, porém, longe de aceitar-me a inspiração, que o convidava à justiça e à piedade, preferiu ouvir pareceres de amigos influentes na política dominante, que vivamente se interessavam pela indébita condenação, na ânsia de exculpar o verdadeiro criminoso.

10 Saldanha fez pequeno intervalo, acentuando a expressão de profundo rancor, e prosseguiu:

— Descrever-lhe o que foi minha dor é alguma coisa de impraticável à capacidade verbal. Jorge recebeu dolorosa pena, quando seu corpo vacilava sob maus tratos, e Irene, minha nora, conturbada pela necessidade e pelo infortúnio, esqueceu as obrigações de mãe, suicidando-se para imantar-se ao espírito de meu pobre filho, já de si mesmo tão infeliz. 11 Torturada pelos sucessos aflitivos, minha esposa desencarnou num catre de indigência, reunindo-se, por sua vez, ao angustiado casal. Minha neta, hoje menina e moça, mas ameaçada por incerto porvir, atende a serviço doméstico, aqui mesmo nesta casa, onde tresloucado irmão de Margarida procura arrastá-la sutilmente a grave desvio moral. 12 O juiz, que aqui preside à assembleia familiar, recebendo-me em sonho as promessas de vingança, buscou colocá-la junto aos próprios parentes, empenhado em reparar de algum modo o seu crime; no entanto, apesar disso, meu desforço não se fará menos brando.

13 Surpreendido, notei que o nosso orientador não ensaiava qualquer doutrinação. Pousando olhos cheios de simpatia no interlocutor, murmurou apenas:

— Realmente, a sementeira de dor é das que mais nos afligem…

14 Encorajado pelo tom amigo daquela frase, Saldanha prosseguiu:

— Muita gente convida-me à transformação espiritual, concitando-me ao perdão estéril. Não aceito, porém, qualquer alvitre desse jaez. 15 Meu desventurado Jorge, sob a pressão mental de Irene, dilacerada, e de Iracema, oprimida, não resistiu e perturbou-se. Enlouquecendo no cárcere, foi transferido da cela úmida para misérrimo hospício, onde mais se assemelha a um animal encurralado. 16 Acredita possa meu cérebro dispor de recursos para meditar em compaixão que não recebi de pessoa alguma? Enquanto esses quadros permanecerem sob meus olhos, não abrirei minhalma às sugestões religiosas. 17 Estou simplesmente diante da vida. A sepultura apenas derruba o muro da carne, porquanto nossas dores continuam tão vivas e tão contundentes quanto em outra época, quando suportávamos a caixa dos ossos. 18 Foi nesse estado que o sacerdote Gregório me encontrou e agradou-se de minhas disposições íntimas. Necessitava de alguém, de alma suficientemente endurecida, para presidir à retirada técnica desta moça que ele deseja arrebatar, devagarinho, à existência terrestre, e louvou-me o ânimo firme. 19 Quase sempre dispomos de servidores em massa para os cometimentos retificadores. Mas não é fácil encontrar um companheiro decidido a perseverar na vingança até ao fim, com o mesmo ódio do princípio. Observou que eu lhe atendia a exigência e confiou-me a tarefa.

20 Passeando colérico olhar pelos ângulos da câmara de repouso, acentuou:

— Todos aqui pagarão. Todos…

21 Admirado, fitei Gúbio que se mantinha imperturbável, silencioso.

Fora eu e talvez me desbordasse em comentários extensos e tirânicos, com referência à lei do amor que nos governa os destinos; reclamaria, com ênfase, a atenção do perseguidor para os ensinamentos de Jesus e, se possível, dobrar-lhe-ia a língua indisciplinada e insolente.

22 O Instrutor, contudo, assim não procedeu.

Sorriu, mudo, buscando disfarçar a própria tristeza.

Dois ou três minutos rolaram, longos, entre nós.


3. Mostrava o relógio um quarto para meio-dia, quando alguns passos se fizeram ouvidos.

— É o médico, — elucidou Saldanha, com manifesta expressão de sarcasmo; — debalde, porém, procurará lesões e micróbios.

2 Quase no mesmo instante, um cavalheiro de idade madura penetrou o recinto, em companhia de Gabriel, o esposo da vítima.

Abeirou-se da enferma, afagou-a gentil e pronunciou algumas palavras de encorajamento.

Margarida, em vão, buscou sorrir. Faltavam-lhe forças para tanto.

3 A conversação ia a meio, quando uma entidade, evidentemente bem intencionada, compareceu. Viu-nos e demonstrou compreender-nos a posição, porque fixou em nós cauteloso olhar sem dizer palavra, acercando-se do médico, solicitamente, qual se lhe fora dedicado enfermeiro.

4 O especialista não parecia profundamente interessado no caso, mas, ao auscultar Margarida, entregue a torpor inquietante, conversou com o marido da vítima de maneira superficial. Declarou que a jovem senhora, em sua opinião, certamente se mantinha sob o império da epilepsia secundária e que, em última análise, se socorreria da colaboração de colegas eminentes para submetê-la a exame particularizado da lesão cérebro-meníngea, seguido, possivelmente, de intervenção cirúrgica aconselhável.

5 Em seguida, porém, observei que a entidade espiritual recém-chegada e que o assistia, com desvelo, pousou a destra em sua fronte, como se desejasse transmitir-lhe algum alvitre providencial.

6 O médico relutou bastante, mas ao cabo de alguns minutos, constrangido por sugestão exterior que não saberia compreender exatamente, convidou Gabriel a um dos ângulos do quarto e lembrou:

— Porque não tenta o Espiritismo? Conheço ultimamente alguns casos intrincados que vão sendo resolvidos, com êxito, pela psicoterapia…

7 E para não dar ideia de uma capitulação científica, ante o idealismo religioso, acrescentava:

— Segundo sabemos hoje, à saciedade, a sugestão é uma força misteriosa, quase desconhecida.

8 O esposo da enferma recebeu o conselho, com simpatia, e perguntou:

— Poderá orientar-me suficientemente?

9 O psiquiatra recuou, de algum modo, e obtemperou:

— Bem, não disponho de maior trato com os expoentes do assunto, todavia, segundo acredito, não terá dificuldades para experimentar.

10 Logo após, deixou ali algumas indicações escritas, relacionando drogas e injeções, e dispôs-se a sair, sob o riso escarninho de Saldanha, que dominava amplamente a situação.

11 Gúbio conversou qualquer coisa com o inquisidor desencarnado e, em seguida, dirigiu-se a mim, esclarecendo:

— André, combinamos que, para observações, deves seguir o médico. Dentro de algumas horas, porém, volta ao nosso posto.

12 Compreendi que o nosso orientador me proporcionava a recolta de novos ensinamentos e acompanhei o especialista em moléstias nervosas, cauteloso e contente.

13 Distanciado agora do lugar em que nosso Instrutor travava batalha singular, acerquei-me da personalidade que assistia o médico de perto e entabulamos amistoso diálogo.

14 O novo amigo atendia pelo nome de Maurício, fora enfermeiro do esculápio que protegia e recebera, com satisfação, a tarefa de ampará-lo nos empreendimentos profissionais.

15 — Todos os médicos, — asseverou-me, convicto, — ainda mesmo quando materialistas de mente impermeável à fé religiosa, contam com amigos espirituais que os auxiliam. 16 A saúde humana é dos mais preciosos dons divinos. Quando a criatura, por relaxamento ou indisciplina, delibera menosprezá-la, faz-se difícil o socorro aos seus centros de equilíbrio, porque, em todos os lugares, o pior surdo é aquele que não quer ouvir. 17 Todavia, por parte de quantos ajudam a marcha humana, da Esfera espiritual, há sempre medidas de proteção à harmonia orgânica, para que a saúde das criaturas não seja prejudicada. 18 Claro que há erros tremendos em medicina e que não podemos evitar. Nossa colaboração não pode ultrapassar o campo receptivo daquele que se interessa pela cura alheia ou pelo próprio reajustamento. Entretanto, realizamos sempre em favor da saúde geral quanto nos é possível.

19 E, numa expressão profundamente significativa, acentuou:

— Ah! Se os médicos orassem!


4. Nesse instante, alcançamos o ponto de destino, antecipando-nos, de algum modo, ao amigo encarnado sob minha observação.

2 A residência confortável, não obstante o formoso jardim que a circundava, permanecia transbordante de fluidos desagradáveis.

3 O clima doméstico era perturbador. Maurício elucidou, sem preâmbulos:

— Estamos sumamente interessados em que o nosso amigo se enfronhe no trato com as magnas questões da alma, a fim de aperfeiçoar-se na tarefa junto à mente enferma, por isso encaminhamos até aqui, por vias indiretas, livros e publicações acerca do assunto; entretanto, contra o nosso desejo, não somente preponderam os preconceitos da classe médica, mas também a influência perniciosa que a segunda esposa exerce sobre ele. 4 Homem inteligente, mas muitíssimo arraigado à remuneração dos sentidos, o nosso amigo não suportou a viuvez e desposou, há cinco anos, uma jovem que lhe exige pesado tributo à maturidade respeitável. 5 Acontece, também, que a esse problema acresce questão muito grave: a primeira esposa desencarnada deixou dois rapazes e permanece ligada à organização doméstica, que considera sua propriedade exclusiva. 6 Por mais que o nosso trabalho se acentue, ainda não conseguimos retirá-la, com proveito, da casa, porque o pensamento dos filhos, em conflito com o pai e com a madrasta, lhe invoca a atuação, de minuto a minuto. O duelo mental nesta casa é enorme. Ninguém cede, ninguém desculpa e o combate espiritual permanente transforma o recinto numa arena de trevas.

7 Calou-se o informante, enquanto entrávamos, e pude notar que, efetivamente, a ex-dona da casa, sem o corpo físico, em singular posição de revolta ali se achava, abraçada a um dos filhos, moço de seus dezoito anos presumíveis, que fumava nervosamente numa espreguiçadeira. Via-se-lhe perfeitamente a condição de vaso receptivo da sublevada mente materna.

8 Ideias inquietantes e delituosas povoavam-lhe a cabeça.

Fios tenuíssimos de força magnética ligavam-no à mãezinha infeliz.

Tinha as mãos crispadas e o olhar absorto, maquinando planos diabólicos e, por mais que o envolvesse o socorro de Maurício, nem ele, nem aquela que lhe fora ciumenta genitora, se mostravam suscetíveis de receber-nos a influenciação restauradora.

9 — Tenho trabalhado tanto quanto me é possível, — explicou o novo companheiro, — a fim de ambientar aqui o espiritualismo de ordem superior. Achamo-nos, entretanto, num campo imensamente refratário.

10 Nesse instante, o médico transpôs o limiar e Maurício colocou sobre a fronte dele a destra generosa, buscando fornecer-lhe intuições exatas, referentes ao caso de Margarida. O especialista, num átimo, começou a articular o aparelhamento mental para exame do assunto que lhe era sugerido, lembrando certa publicação técnica, única maneira através da qual conseguia registar os pensamentos do companheiro espiritual. Mesmo assim, o esforço não logrou êxito.

11 O filho atacou o genitor com recriminações acerbas, em vista de se haver demorado excessivamente para o almoço.

O esculápio depressa desligou a mente de nossos fios invisíveis, precipitando-a no torvelinho das vibrações antagônicas.

12 A esposa desencarnada veio igualmente sobre ele, furiosamente. Reparei que o dono da casa não lhe assinalou os punhos ativos no rosto, mas o sangue concentrou-se-lhe na região das têmporas, tingindo-se-lhe a máscara fisionômica de cólera indisfarçável. Resmungou algumas palavras, saturadas de indignação, e perdeu, de todo, o contato espiritual conosco.

13 Maurício indicou-o com insofreável tristeza e acentuou:

— É sempre assim. Muito difícil aproximarmo-nos, na Esfera física, daqueles a quem nos propomos auxiliar. Surgem ensejos valiosos de realização espiritual, como presentemente nos ocorre, diante do problema de Margarida. No entanto, nossas tentativas redundam em rematada frustração. 14 Um homem, intelectualizado pela responsabilidade acadêmica, por si mesmo deveria sentir santa curiosidade perante a vida, abstendo-se de certo comércio mais intenso com a satisfação egoística da experiência no corpo. Porém, a criatura costuma persegui-la até o desgaste completo da forma carnal de que se serve. Por mais que a convoquemos à preciosa viagem da periferia para o centro, a fim de que ela se amolde aos imperativos da vida que a espera, além do sepulcro, nosso esforço é quase sempre considerado adiável e inútil.


5. Sorriu, enigmático, e, ajuntou:

— E observemos que nos achamos à frente de um homem chamado pelo campo social ao ministério da cura.

2 Nesse ínterim, a pequena família se reuniu, ao redor da mesa posta, e a segunda esposa do médico me impressionou pelo apuro da apresentação. A pintura do rosto, sem dúvida, era admirável. O traje elegante e sóbrio, as joias discretas e o penteado harmonioso realçavam-lhe a profundez do olhar, mas rodeava-se ela de substância fluídica deprimente. 3 Halo plúmbeo denunciava-lhe a posição de inferioridade. Socialmente, aquela dama devia ser das de mais fino trato; contudo, terminado o repasto, deixou positivamente evidenciada sua deplorável condição psíquica. Depois de uma discussão menos feliz com o marido, a jovem mulher buscou o sono da sesta, num divã largo e macio.

4 Intencionalmente, Maurício convidou-me a espreitar-lhe o repouso e, com enorme surpresa, aturdido mesmo, não lhe vi os mesmos traços fisionômicos na organização perispiritual que abandonava a estrutura carnal, entregue ao descanso. 5 Alguma semelhança era de notar-se, mas, afinal de contas, a senhora tornara-se irreconhecível. Estampava no semblante os sinais das bruxas dos velhos contos infantis. A boca, os olhos, o nariz e os ouvidos revelavam algo de monstruoso.

6 A própria esposa desencarnada, ali presente em clamorosa revolta, não se animou a enfrentá-la. Recuou semi-espavorida, tentando ocultar-se junto do filho.

7 Lembrei-me, então, do livro em que Oscar Wilde nos conta a história do retrato de Dorian Gray, ( † ) que adquiria horrenda expressão à medida que o dono se alterava intimamente na prática do mal e, endereçando a Maurício olhar indagador, dele recebi sensata elucidação:

— Sim, meu amigo, — disse, tolerante, — a imaginação de Wilde não fantasiou. 8 O homem e a mulher, com os seus pensamentos, atitudes, palavras e atos criam, no íntimo, a verdadeira forma espiritual a que se acolhem. Cada crime, cada queda, deixam aleijões e sulcos horrendos no campo da alma, tanto quanto cada ação generosa e cada pensamento superior acrescentam beleza e perfeição à forma perispirítica, dentro da qual a individualidade real se manifesta, mormente depois da morte do corpo denso. 9 Há criaturas belas e admiráveis na carne e que, no fundo, são verdadeiros monstros mentais, do mesmo modo que há corpos torturados e detestados, no mundo, escondendo Espíritos angélicos, de celestial formosura.

10 E designando a infeliz que se ausentava de casa, semiliberta do veículo material, acentuou:

— Esta irmã desventurada permanece sob o império de Espíritos gozadores e animalizados que, por muito tempo, a reterão em lastimáveis desequilíbrios. 11 Acreditamos que ela, sem fé renovadora, sem ideais santificantes e sem conduta digna, não se precatará tão cedo dos perigos que corre e somente se lembrará de chorar, aprender e transformar-se para o bem, quando se afastar, em definitivo, do vaso de carne, na condição de autêntica bruxa.

12 O assunto era realmente fascinante e a lição era imensa. Entretanto, meu tempo disponível esgotara.

O minuto exigia pronto regresso.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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