Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Nos domínios da mediunidade — André Luiz


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Mediunidade e oração

(Sumário)

1. Em estreito aposento, uma senhora, aparentando setenta anos de idade, acusava aflitiva dispneia.

2 A pequena Márcia, agitando um leque improvisado, propiciava-lhe ar fresco.

Ao lado da enferma, porém, uma entidade de aspecto desagradável exibia estranha máscara de perturbação e sofrimento, imantando-se a ela e agravando-lhe os tormentos físicos.

Tratava-se de um homem desencarnado, demonstrando no olhar a alienação mental evidente.

3 Enquanto Anésia se acomodava, junto à doente, com inexcedível ternura, procurando esquecer-se de si mesma para ajudá-la, Áulus informou, prestimoso:

— Temos aqui nossa irmã Elisa, em avançado processo liberatório… Vive as últimas horas no corpo carnal…

4 — E este homem de triste apresentação que lhe guarda a cabeceira? — Perguntou Hilário, indicando a entidade que não nos via.

— Este é um infortunado filho de nossa veneranda amiga, há muitos anos distanciado da experiência física. Teve a infelicidade de chafurdar no vício da embriaguez e foi assassinado numa noite de extravagância. A genitora, porém, dele se recorda, como a um herói, e, a evocá-lo incessantemente, retém o infeliz ao pé do próprio leito.

— Ora essa! Por quê?

5 O Assistente modificou o tom de voz e recomendou-nos serenidade. Analisaríamos o caso em momento oportuno. O problema de Anésia pedia colaboração imediata.

Realmente, a pobre senhora, de fisionomia fatigada, acariciava a enferma com palavras de amor, mas Dona Elisa parecia aloucada, distante…

6 Anésia desfez-se em lágrimas.

— Por que chorar, mãezinha? Vovó não está pior…

A voz meiga de Márcia ressoou no quarto, modulada com inefável carinho.

A menina, que nem de longe poderia perceber a tortura materna, enlaçou a genitora convidando-a à oração.

7 Dona Anésia desejou a presença das filhas mais velhas, contudo, Marcina e Marta alegaram que o natalício de uma companheira de trabalho lhes impunha a necessidade de sair por alguns minutos.

A dona da casa sentou-se rente à enferma e, acompanhada pela atenção da filhinha, pronunciou sentida prece.

8 À medida que orava, funda modificação se lhe imprimia ao mundo interior. Os dardos de tristeza, que lhe dilaceravam a alma, desapareceram ante os raios de branda luz a se lhe exteriorizarem do coração. Desde esse instante, qual se houvera acendido uma lâmpada em plena obscuridade, vários desencarnados sofredores penetraram o quarto, abeirando-se dela, à maneira de doentes, solicitando medicação.

9 Nenhum deles nos assinalava a presença e, diante da nossa curiosidade silenciosa, Áulus aclarou:

— São companheiros que trazem ainda a mente em teor vibratório idêntico ao da existência na carne. 10 Na fase em que estagiam, mais depressa se ajustam com o auxílio dos encarnados, em cuja faixa de impressões ainda respiram. Quantos se encontram em semelhante estado, dentro do raio de ação das preces de nossa amiga, recebem o toque de espiritualidade que emana do serviço dessa natureza e, quando sensíveis ao bem ou sedentos de renovação interior, dão-se pressa em responder ao apelo de elevação que os visita, aderindo à oração, de cujo sublime poder recolhem esclarecimento e consolo, amparo e benefício.

— Quanto valor num insignificante ato de fé!…

11 O Assistente afagou a fronte inquieta de Hilário e concordou:

— Sim o homem terrestre criou enormes complicações ao seu caminho, contudo, a morte constrange-o a regressar aos alicerces da simplicidade para a regeneração da própria vida.

12 A essa altura, Anésia abriu precioso livro de meditações evangélicas, acreditando agir ao acaso, mas o tema, em verdade, foi escolhido por Teonília, que lhe vigiava, bondosa, os movimentos.

Com surpresa, a dona da casa notou que o texto se reportava à necessidade do trabalho e do perdão.

13 Dócil, correspondendo à influenciação da mentora espiritual, a esposa de Jovino começou a falar sabiamente sobre os impositivos do serviço e da tolerância construtiva, em favor da edificação justa do bem.

A voz dela, fluente e suave, transmitia, sem que ela mesma percebesse, o pensamento de Teonília que, com isso, buscava socorrer-lhe o coração atormentado.

14 Numa pausa mais longa, Márcia reparou com inteligência:

— Continue, mãezinha! Continue… Tenho a ideia de que nos achamos à frente de enorme multidão…

15 E sem refletir que estava pregando, acima de tudo, para si mesma, Anésia adiantou:

— Sim, minha filha, estamos sozinhas porque a vovó, fatigada, não nos ouve. Isso, porém, é só na aparência. Muitos irmãos desencarnados, decerto, permanecem aqui conosco e acompanham nosso culto de oração.

16 E prosseguiu nos comentários que, efetivamente, acendiam novo ânimo nas almas presentes, ávidas de luz, tanto quanto sequiosas de paz e refazimento.

Terminada a tarefa, Márcia despediu-se da mãezinha com um beijo.

O serviço escolar da manhã exigia o repouso mais cedo.

17 Depois de afetuosas recomendações à menina, viu-se Anésia a sós com a genitora semi-inconsciente.

Acariciou-lhe o rosto pergaminhado e pálido, acomodou-lhe a cabeça suarenta nos travesseiros e estirou-se ao lado dela, como que procurando pensar, pensar…


2. Áulus fez significativo gesto a Teonília e exclamou:

— Este é o momento exato.

2 Cuidadosamente, começaram ambos a aplicar-lhe passes sobre a cabeça, concentrando energia magnética ao longo das células corticais.

3 Anésia viu-se presa de branda hipnose, que ela própria atribuía ao cansaço e não relutou.

Em breves instantes, deixava o corpo denso na prostração do sono, vindo ao nosso encontro em desdobramento quase natural.

4 Não parecia, contudo, tão consciente em nosso Plano quanto seria de desejar.

Centralizada no afeto ao marido, Jovino constituía-lhe obcecante preocupação. Reconheceu Teonília e Áulus por benfeitores e lançou-nos significativo olhar de simpatia, no entanto, mostrava-se atordoada, aflita… Queria ver o esposo, ouvir o esposo…

5 O Assistente deliberou satisfazê-la.

Amparada pelos braços da admirável amiga, tomou a direção que lhe pareceu acertada, como quem possuía, de antemão, todos os dados necessários à localização do marido.

6 Áulus conosco explicou que as almas, quando associadas entre si, vivem ligadas umas às outras pela imanação magnética, superando obstáculos e distâncias.

7 Em vasto salão de um clube noturno, surpreendemos Jovino e a mulher que se fizera nossa conhecida nos fenômenos telepáticos, integrando um grupo alegre, em atitudes de profunda intimidade afetiva.

Rodeando o conjunto, diversas entidades, estranhas para nós, formavam vicioso círculo de vampiros que não nas registaram a presença.

O anedotário menos edificante prendia as atenções.

8 Ao defrontar o companheiro na posição em que se achava, Anésia desferiu doloroso grito e caiu em pranto.

Seguida por nós, recuou ferida de aflição e assombro e tão logo nos vimos na via pública, bafejados pelo ar leve da noite, o Assistente abraçou-a, paternal.

9 Notando-a mais senhora de si, embora o sofrimento lhe transfigurasse o rosto, falou-lhe com extremado carinho:

— Minha irmã, recomponha-se. Você orou, pedindo assistência espiritual, e aqui estamos, trazendo-lhe solidariedade. Reanime-se! Não perca a esperança!…

— Esperança? — Clamou a pobre criatura em lágrimas. — Fui traída, miseravelmente traída…

10 E o entendimento, entre os dois, prosseguiu comovente e expressivo.

— Traída por quem?

— Por meu esposo, que falhou aos compromissos do casamento.

— Mas você admite, porventura, que o casamento seja uma simples excursão no jardim da carne? Supôs que o matrimônio terrestre fosse apenas a música da ilusão a eternizar-se no tempo? 11 Minha amiga, o lar é uma escola em que as almas se reaproximam para o serviço da sua própria regeneração, com vistas ao aprimoramento que nos cabe apresentar de futuro. Você ignora que no educandário há professores e alunos? Desconhece que os melhores devem ajudar aos menos bons?

12 A interlocutora, chamada a brios, sustou a lamentação. Ainda assim, após fitar o nosso orientador com entranhada confiança, alegou, triste:

— Mas Jovino…

13 Áulus, porém, cortou-lhe a frase, acrescentando:

— Esquece-se de que seu esposo precisa muito mais agora de seu entendimento e carinho? 14 Nem sempre a mulher poderá ver no companheiro o homem amado com ternura, mas sim um filho espiritual necessitado de compreensão e sacrifício para soerguer-se, como também nem sempre o homem conseguirá contemplar na esposa a flor de seus primeiros sonhos, mas sim uma filha do coração, a requisitar-lhe tolerância e bondade, a fim de que se transfira da sombra para a luz. 15 Anésia, o amor não é tão somente a ventura rósea e doce do sexo perfeitamente atendido. É uma luz que brilha mais alto, inspirando a coragem da renúncia e do perdão incondicionais, em favor do ser e dos seres que nós amamos. 16 Jovino é uma planta que o Senhor lhe confiou às mãos de jardineira. É compreensível que a planta seja assaltada pelos parasitas ou pelos vermes da morte, todavia, nada há a recear se a jardineira está vigilante…

17 Nesse ponto das belas palavras do instrutor, a mãezinha de Márcia voltou-se para ele, à maneira de uma doente agarrando-se ao médico, e rogou em voz súplice:

— Sim, sim… Reconheço… Entretanto, não me deixe sozinha… Sinto-me atribulada. Que fazer da mulher que o domina? Nela vejo a perturbação e o fel de nossa casa… Assemelha-se a um Espírito diabólico, fascinando-o e destruindo-o…

18 — Não se refira a ela assim, com palavras amargas! É também nossa irmã, vitimada por lastimáveis enganos!…

— Mas como aceitá-la? Percebo-lhe a influência maligna… Parece uma serpente invisível, trazendo consigo pavorosos monstros para junto de nós… Nosso templo doméstico, por isso, transformou-se num inferno em que não mais nos entendemos… Tudo agora é fracasso, desarmonia e insegurança… Que fazer de semelhante criatura?

19 — Compadeçamo-nos dela! Terrível ser-lhe-á o despertamento.

— Compaixão?

— E que outra melhor represália senão essa?

— Não seria mais justo situá-la na reparação dos próprios erros? Não seria mais certo relegá-la ao lugar escuro que merece?

20 Áulus, porém, tomou-lhe a destra inquieta e esclareceu:

— Abstenhamo-nos de julgar. ( † ) Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. 21 A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte? 22 Por mais aflitiva lhe seja a lembrança dessa mulher, recorde-a em suas preces e em suas meditações, por irmã necessitada de nossa assistência fraterna. 23 Ainda não readquirimos nossa memória integral do passado e nem sabemos o que nos ocorrerá no futuro… Quem terá sido ela no pretérito? Alguém que ajudamos ou ferimos? Quem será para nós no porvir? Nossa mãe ou nossa filha? 24 Não condene! O ódio é como o incêndio que tudo consome, mas o amor sabe como apagar o fogo e reconstruir. 25 Segundo a Lei, o bem neutraliza o mal, que se transforma, por fim, em servidor do próprio bem. 26 Ainda que tudo pareça conspirar contra a sua felicidade, ame e ajude sempre, porque o tempo se incumbirá de expulsar as trevas que nos visitam, à medida que se nos aumente o mérito moral.

27 Anésia, assemelhando-se a uma criança resignada, pousou no benfeitor os olhos límpidos, como a prometer-lhe obediência, e Áulus, afagando-a, recomendou:

— Volte ao lar e use a humildade e o perdão, o trabalho e a prece, a bondade e o silêncio, na defesa de sua segurança. A mãezinha enferma e as filhinhas reclamam-lhe amor puro, tanto quanto o nosso Jovino, que voltará, mais experiente, ao refúgio de seu coração.

28 Anésia ergueu a cabeça para o firmamento constelado de luz, pronunciando uma oração de louvor e, em seguida, tornou a casa.

Vimo-la despertar no corpo carnal, de alma renovada, quase feliz…

Enxugou as lágrimas que lhe banhavam o rosto e tentou ansiosamente recordar, ponto a ponto, a entrevista que tivera conosco.

29 Em verdade, não conseguiu alinhar senão fragmentárias reminiscências, mas reconheceu-se reconfortada, sem revolta e sem amargura, como se mãos intangíveis lhe houvessem lavado a mente, conferindo-lhe uma compreensão mais clara da vida.

Recordou Jovino e a mulher que o hipnotizava, compadecidamente, como pessoas a lhe exigirem tolerância e piedade.

30 Profundo entendimento brotava-lhe agora do espírito. A compreensão da irmã superara o desequilíbrio da mulher.

E pensava: “Que lhe adiantaria a revolta ou o desânimo, quando lhe competia a defesa do lar? Fazendo justiça com as próprias mãos, não prejudicaria aqueles que lhe constituíam a riqueza do coração?! 31 Em qualquer parte, o escândalo é a ruína da felicidade… Não devia render graças a Deus por sentir-se na condição da esposa digna? 32 Sim, decerto a pobre criatura que lhe perturbava o marido não havia acordado ainda para a responsabilidade e para o discernimento. Necessitava, pois, de compaixão e de amparo, ao invés de crítica e azedume…”

Consolada e satisfeita, passou à medicação da genitora.


3. Hilário, admirado, exaltou os méritos da oração, ao que Áulus enunciou:

2 — Em todos os processos de nosso intercâmbio com os encarnados, desde a mediunidade torturada à mediunidade gloriosa, a prece é abençoada luz, assimilando correntes superiores de força mental que nos auxiliam no resgate ou na ascensão.

3 Indicando a dona da casa, agora em serviço no aposento, meu colega observou:

— Vemos, então, em nossa amiga preciosa mediunidade a desenvolver-se…

— Como acontece a milhões de pessoas disse o orientador, — ela detém consigo recursos medianímicos apreciáveis, que podem ser inclinados para o bem ou para o mal, competindo-lhe a obrigação de construir dentro de si mesma a fortaleza de conhecimento e vigilância, na qual possa desfrutar, em pensamento, as companhias espirituais que mais lhe convenham à felicidade.

— E pela prece busca solução para os enigmas que lhe flagelam a existência…

4 Áulus sorriu e ajuntou:

— Encontramos aqui precioso ensinamento acerca da oração… Anésia, mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha doente aproxima-se da morte, entretanto, nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provações que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente transforma as situações.

5 O Assistente, contudo, interrompeu-se e lembrou-nos o horário de volta.

Por solicitação de Teonília, examinou a doente e concluiu que a desencarnação de Dona Elisa estava próxima.

Externei o desejo de analisar-lhe o campo orgânico; todavia, o instrutor recordou-nos a hora avançada e prometeu voltar conosco, em tarefa de assistência à velhinha na noite próxima.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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