Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Os mensageiros — André Luiz


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Vida social

(Sumário)

1 À noite, surpreendiam-me os sublimes aspectos do firmamento no Posto de Socorro. O luar safirino envolvia todas as coisas. O céu era qual infinita colcha de azul muito límpido, pontilhado de astros fulgurantes. As nuvens da tarde haviam desaparecido.

Contemplando a beleza da noite, Alfredo acentuou:

— Felizmente, os fenômenos magnéticos foram deslocados do nosso círculo. Os aparelhos, porém, continuam registrando enorme conflito de forças inferiores.

Ia comentar a beleza do céu, ante a observação do administrador, quando a campainha retiniu suavemente.

Chamavam à entrada. Alfredo e Ismália sorriram.

Muito gentil, o chefe do Posto asseverou:

— Temos a visita de amigos do “Campo da Paz”.

E, convidando-nos à recepção no baluarte avançado, acrescentou jovialmente:

— Temos, também, aqui, a nossa vida social. Como não? É preciso saber viver.

Encantado com essa nota alegre, acompanhei os donos da casa, verificando, com indizível surpresa, que tínhamos sob os olhos um belo carro tirado por dois soberbos cavalos brancos. Tratava-se de veículo confortável e interessante, quase idêntico aos velhos carros de serviço público, do tempo de Luís XV, que eu vira, mais de uma vez, em publicações antigas. Nele chegara pequena família da colônia próxima, que, pelas informações de Aniceto, demorava a três léguas do Posto, aproximadamente.

Alfredo apresentou-nos, cavalheirescamente, com exceção de nosso orientador, que era velho amigo dos recém-chegados.

Constituíam-se os visitantes do casal Bacelar e duas filhas jovens. O chefe do grupo mostrava idade avançada, revelando, porém, excelentes disposições. A senhora dava impressão de madureza, aparentando, contudo, maravilhosa vivacidade, assim como as duas moças.

A alegria era enorme. Não se observava qualquer nota de convencionalismo menos digno, como na Terra. Os gestos de cada um, a simplicidade, a despreocupação e as frases afetuosas demonstravam sinceridade pura. Permanecíamos num quadro social inacessível ao fingimento.

Voltando ao interior doméstico, entre grandes manifestações de júbilo familiar, observei que os recém-chegados eram amigos de muito tempo, que vinham ao encontro de Ismália. A nobre senhora pareceu-me contentíssima. Expediu recados afetuosos para algumas famílias do Posto e, em breves minutos, o castelo recebia inúmeras pessoas que concorriam ao brilhantismo da seleta reunião.

Sentindo-me assaz insignificante, ao lado dos novos amigos, limitava-me a ouvir e observar.


2 Logo aos primeiros instantes de conversação particularizada, ouvi Aniceto perguntar ao senhor Bacelar:

— Como corre o serviço?

O velho bondoso respondeu num sorriso largo:

— Bem, sempre bem. Apenas não podemos fixar demasiada atenção nos companheiros encarnados.

E ajuntou com graça:

— É indispensável aprender a servir e passar.

Nosso instrutor sorriu igualmente e observou:

— Compreendo, compreendo. Aliás, o progresso humano não é uma questão de dias. Não tenhamos ilusões.

E, percebendo que Vicente e eu poderíamos aproveitar com a palestra, Aniceto indicou o novo hóspede de Alfredo, explicando solícito:

— Nosso amigo Bacelar é chefe de turmas de assistência aos nossos irmãos do Círculo carnal. Tem longa experiência dos homens e conhece-os como ninguém. Há muito que aproveitar nas suas observações.

— Não tanto, meus caros — exclamou o senhor Bacelar, de bom humor —, não tanto. Sou simples companheiro de vocês, cumprindo deveres por acréscimo da misericórdia divina. Não posso fazer muito, em razão de minhas deficiências naturais.

— Estamos certos do grande proveito da sua palavra — objetou Vicente, até então calado.

— Tudo o que nos disser sobre o problema de assistência constituirá, para nós, ensinamento precioso — disse por minha vez.

O novo amigo fitou-nos com inteligência, e perguntou:

— Foram médicos no mundo?

— Sim — respondemos a um só tempo.

O senhor Bacelar pensou alguns momentos e acentuou:

— Sempre gostei de conversar com os amigos, recorrendo aos símbolos sugeridos pela profissão que exercem. Mas, no tocante às minhas atividades, não teria muito o que dizer a médicos militantes.

— Pelo contrário — aduzi —, seus esclarecimentos enriquecerão nossas experiências.

O interlocutor sorriu, otimista, e declarou:

— Não creia. Recorde os seus doentes comuns. Muito raramente lembram a medicina preventiva. De modo quase invariável, esperam a positivação das moléstias para buscarem o recurso preciso. Necessitam de anestésicos para o socorro do bisturi. Fogem ao regímen tão logo surja a primeira melhora. Confundem o método de tratamento, apenas se registre o primeiro sinal de cura. Detestam a dor que restabelece o equilíbrio. Descontentam-se com a indicação de purgativos. Preferem a medicação de sabor agradável. E, sobretudo, quase sempre querem saber muito mais que os médicos. Esta síntese aplicável a corpos doentes representa, em nosso campo de serviço, o resumo do programa de assistência aos Espíritos enfermos, encarnados na Terra, e com agravantes de vulto, porque, em nosso setor, não podemos manipular a alma, à maneira do cirurgião que opera as amídalas. Somos forçados à preparação do campo mental conveniente, a proceder à semeadura de pensamentos novos, velar pela germinação, ajudar os rebentos minúsculos e aguardar a obra do tempo. Nossa luta não é simples, porque, se o clínico do mundo encontra sempre familiares amorosos, dispostos a cooperar com ele em benefício do doente, o que encontramos, por nossa vez, são enormes legiões de elementos adversos à nossa atividade restauradora e curativa. Em geral, o médico do mundo presta socorro a quem deseja recebê-lo, pelo menos nas ocasiões de graves perigos; nós, porém, meus amigos, muitas vezes temos de prestar assistência aos que não a desejam, por viverem sob véus de profunda ignorância.


3 — Tem razão — murmurei, ouvindo comparações tão lógicas —; entretanto, vale por conforto a certeza de que há muitos cooperadores encarnados no mundo prontos a colaborar na tarefa.

O senhor Bacelar teve uma expressão fisionômica muito significativa, e revelou:

— Nem sempre. A cooperação é outro problema. A maioria dos irmãos que se propõem ao serviço, partem daqui prometendo, mas gostam de viver descansados, no planeta. Poucos fogem ao estalão comum. Raramente encontramos companheiros encarnados com bastante disposição para amar o trabalho pelo trabalho, sem ideia de recompensa. A maioria está procurando remuneração imediata. Nessas condições, não percebem que a mente lhes fica como aposento escuro, atulhado de elementos inúteis. À força de viciarem raciocínios, confundem igualmente a visão. Enxergam tormentas onde há paisagens celestes, montanhas de pedra onde o caminho é gloriosa elevação. De pequenos enganos a pequenos enganos, formam o continente das grandes fantasias. Daí por diante, a recapitulação das experiências terrenas inclina-os, mais fortemente, para a exigência animal e, chegados a esse ponto, raros voltam ao dever sagrado, para considerar a grandeza das divinas bênçãos.


4 Nosso interlocutor fez uma pausa e tornou:

— E o “desculpismo”? Nesse terreno de assistência espiritual, verão, um dia, quantos pretextos são inventados pelas criaturas terrestres por fugir ao testemunho da verdade divina, nas tarefas que lhes são próprias. Os mordomos da responsabilidade alegam excesso de deveres, os servidores da obediência afirmam ausência de ensejo. Os que guardam possibilidades financeiras montam guarda ao patrimônio amoedado, os que receberam a bênção da pobreza de recursos monetários aconselham-se com a revolta. Os moços declaram-se muito jovens para cultivar as realidades sublimes, os mais idosos afirmam-se inúteis para servi-las. Os casados reclamam quanto à família, os solteiros queixam-se da ausência dela. Dizem os doentes que não podem, comentam os sãos que não precisam. Raros companheiros encarnados conseguem viver sem a contradição.

O senhor Bacelar parecia disposto a prosseguir, mas as duas jovens foram buscá-lo, a ele e Aniceto, em nome de Alfredo, a fim de providenciar solução de problema íntimo que lhes dizia respeito.


.André Luiz


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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