Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

Índice Página inicial Próximo Capítulo

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


15


Augusto dos Anjos n

Paraibano. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914, na cidade de Leopoldina, Minas. Era professor no Colégio Pedro II. Inconfundível pela bizarria da técnica, bem como dos assuntos de sua predileção, deixou um só livro — Eu — que foi, aliás, suficiente para lhe dar personalidade original.


VOZ DO INFINITO

I

  1 No excêntrico labor das minhas normas

  Na Terra, muita vez me consumia

  Perquirindo nas leis da Biologia

  As expressões orgânicas das formas.


  2 O fenômeno apenas, porque o fundo

  Do número às eternas rutilâncias,

  Eram partes do Todo nas Substâncias

  Desde o estado prodrômico do mundo.


  3 Com o espírito absconso em paroxismos,

  No rubro incêndio de batalha acesa,

  Via Deus adstrito à Natureza,

  Deus era a lei de eternos transformismos.


  4 Concepção panteística, englobando

  As substâncias todas na Unidade,

  Perpetuando-se em continuidade,

  A essência onicriadora reformando.


  5 O corpo, desde o embrião inicial,

  Era um mero atavismo revivendo;

  A alma era a molécula, sofrendo,

  Afastada do Todo Universal;


  6 Dominava-me todo o medo horrível,

  Do meu viver, que eu via transtornado:

  Eu era um átomo individuado

  Em cerebralidade putrescível.


  7 À luz dessa dourada ignorância,

  E com certezas lógicas, numéricas,

  Notava as pestilências cadavéricas

  Iguais à carne angélica da infância;


  8 A sutilez do arminho que se veste,

  A coroa aromática das flores,

  Irmanadas aos pútridos fedores

  De emanações pestíferas da peste!


  9 Extravagância e excesso jamais visto,

  De ideia que esteriliza e desensina,

  Loucura que igualava Messalina

  À pureza lirial da Mãe do Cristo.


  10 Assim vivi na presunção que via,

  Dos cumes da Ciência e do saber,

  Os princípios genéricos do ser,

  No pantanal da lama em que eu vivia.


  11 Vi, porém, a matéria apodrecer,

  E na individualidade indivisível

  Ouvi a voz esplêndida e terrível

  Da luz, na luz etérica a dizer:


II

  12 «Louco, que emerges de apodrecimentos,

  Alma pobre, esquelético fantasma

  Que gastaste a energia do teu plasma

  Em combates estéreis, famulentos…


  13 Em teus dias inúteis, foste apenas

  Um corvo ou sanguessuga de defuntos,

  Vendo somente a cárie dos conjuntos,

  Entre as sombras das lágrimas terrenas.


  14 Vias os teus iguais, iguais aos odres

  Onde se guarda o fragmento imundo,

  De todo o esterco que apavora o mundo

  E os tóxicos letais dos corpos podres.


  15 E tanto viste os corpos e as matérias

  No esterquilínio generalizados,

  E os instintos hidrófobos, danados,

  Em meio de excrescências e misérias,


  16 Que corrompeste a íntima saúde

  Da tua alma cegada de amargores,

  Que na Terra não viu os esplendores

  E as ignívomas luzes da virtude.


  17 Olhos cegos às chamas da bondade

  De Deus e à divinal misericórdia,

  Que espalha o bem e as auras da concórdia

  No coração de toda a Humanidade.


  18 Descansa, agora, vibrião das ruínas,

  Esquece o verme, as carnes, os estrumes

  Retempera-te em meio dos perfumes

  Cantando a luz das amplidões divinas.»


III

  19 Calou-se a voz. E sufocando gritos.

  Filhos do pranto que me espedaçava,

  Reconheci que a vida continuava

  Infinita, em eternos infinitos!


VOZES DE UMA SOMBRA


  1 Donde venho? Das eras remotíssimas,

  Das substâncias elementaríssimas,

  Emergindo das cósmicas matérias.

  Venho dos invisíveis protozoários,

  Da confusão dos seres embrionários,

  Das células primevas, das bactérias.


  2 Venho da fonte eterna das origens,

  No turbilhão de todas as vertigens,

  Em mil transmutações, fundas e enormes;

  Do silêncio da mônada invisível,

  Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,

  Vitalizando corpos multiformes.


  3 Sei que evolvi e sei que sou oriundo

  Do trabalho telúrico do mundo,

  Da Terra no vultoso e imenso abdômen;

  Sofri, desde as intensas torpitudes

  Das larvas microscópicas e rudes,

  À infinita desgraça de ser homem.


  4 Na Terra, apenas fui terrível presa,

  Simbiose da dor e da tristeza,

  Durante penosíssimos minutos;

  A dor, essa tirânica incendiária,

  Abatia-me a vida solitária

  Como se eu fora bruto entre os mais brutos.


  5 Depois, voltei desse laboratório,

  Onde me revolvi como infusório,

  Como animálculo medonho, obscuro,

  Té atingir a evolução dos seres

  Conscientes de todos os deveres,

  Descortinando as luzes do futuro.


  6 E vejo os meus incógnitos problemas

  Iguais a horrendos e fatais dilemas,

  Enigmas insolúveis e profundos;

  Sombra egressa de lousa dura e fria,

  Grito ao mundo o meu grito que se alia

  A todos os anseios gemebundos: —


  7 «Homem! por mais que gastes teus fosfatos

  Não saberás, analisando os fatos,

  Inda que desintegres energias,

  A razão do completo e do incompleto,

  Como é que em homem se transforma o feto

  Entre os duzentos e setenta dias.


  8 A flor da laranjeira, a asa do inseto,

  Um estafermo e um Tales de Mileto,

  Como existiram, não perceberás:

  E nem compreenderás como se opera

  A mutação do inverno em primavera,

  E a transubstanciação da guerra em paz;


  9 Como vivem o novo e o obsoleto,

  O ângulo obtuso e o ângulo reto

  Dentro das linhas da Geometria;

  A luz de Miguel Ângelo nas artes,

  E o espírito profundo de Descartes

  No eterno estudo da Filosofia.


  10 Porque existem as crianças e os macróbios

  Nas coletividades dos macróbios

  Que fazem a vida enferma e a vida sã;

  Os antigos remédios alopatas

  E as modernas dosagens homeopatas,

  Produto da experiência de Hahnemann.


  11 A psíquico-análise freudiana

  Tentando aprofundar a alma humana

  Com a mais requintadíssima vaidade,

  E as teorias do Espiritualismo

  Enchendo os homens todos de otimismo,

  Mostrando as luzes da imortalidade.


  12 Como vive o canário junto ao corvo,

  O céu iluminado, o inferno torvo

  Nos absconsos refolhos da consciência;

  O laconismo e a prolixidade,

  A atividade e a inatividade,

  A noite da ignorância e o sol da Ciência.


  13 As epidermes e as aponevroses,

  As grandes atonias e as nevroses,

  As atrações e as grandes repulsões,

  Que reunindo os átomos no solo

  Tecem a evolução de pólo a pólo,

  Em prodigiosas manifestações;


  14 Como os degenerados blastodermas

  Criam a descendência dos palermas

  No lupanar das pobres meretrizes,

  Junto dos palacetes higiênicos,

  Onde entre gozos fúlgidos e edênicos

  Cresce a alegre progênie dos felizes.


  15 Os lombricóides mínimos, os vermes,

  Em contraposição com os paquidermes,

  Assombrosas antíteses no mundo;

  É o gigante e o germe originário,

  Os milhões de corpúsculos do ovário,

  Onde há somente um óvulo fecundo.


  16 A alma pura do Cristo e a de Tibério,

  Vaso de carne podre, o cemitério,

  E o jardim recendendo de perfumes;

  O doloroso e tetro cataclismo

  Da beleza louca do organismo,

  Repleto de dejetos e de estrumes.


  17 As coisas substanciais e as coisas ocas,

  As ideias conexas e as loucas,

  A teoria cristã e Augusto Comte;

  E desconhecido e o devassado.

  E o que é ilimitado e o limitado

  Na óptica ilusória do horizonte.


  18 Os terrenos povoados e o deserto,

  Aquilo que está longe e o que está perto;

  O que não tem sinal e o que tem marca;

  A funda simpatia e a antipatia,

  As atrofias e a hipertrofia,

  Como as tuberculoses e a anasarca.


  19 Os fenômenos todos geológicos,

  Psíquicos, científicos, sociológicos,

  Que inspiram pavor e inspiram medo;

  Homem! por mais que a ideia tua gastes,

  Na solução de todos os contrastes,

  Não saberás o cósmico segredo.


  20 E apesar da teoria mais abstrusa

  Dessa ciência inicial, confusa,

  A que se acolhem míseros ateus,

  Caminharás lutando além da cova,

  Para a Vida que eterna se renova,

  Buscando as perfeições do Amor em Deus.»


VOZ HUMANA

  1 Uma voz. Duas vozes. Outras vozes.

  Milhões de vozes. Cosmopolitismos.

  Gritos de feras em paroxismos,

  Uivando subjugadas e ferozes.


  2 É a voz humana em intérminas nevroses,

  Seja nas concepções dos ateísmos,

  Ou mesmo vinculada a gnosticismos

  Nos singultos preagônicos, atrozes.


  3 É nessa eterna súplica angustiada

  Que eu vejo a dor em gozos, insaciada,

  Nutrir-se de famélicos prazeres.


  4 A dor, que gargalhando em nossas dores,

  É a obreira que tece os esplendores

  Da evolução onímoda dos seres.


ALMA

  1 Nos combates ciclópicos, titânicos,

  Que eu às vezes na Terra empreendia,

  Nos vastos campos da Psicologia,

  Buscava as almas, seres inorgânicos;


  2 Nas lágrimas, nos risos e nos pânicos,

  Nos distúrbios sutis da hipocondria,

  Nas defectividades da estesia,

  Nos instintos soezes e tirânicos,


  3 Somente achava corpos na existência,

  E o sangue em continuada efervescência

  Com impulsos terríficos e tredos.


  4 Enceguecido e louco então que eu era,

  Que não via, dos astros à monera,

  As luzes dalma em trágicos segredos.


ANÁLISE

  1 Oh! que desdita estranha a de nascermos

  Nas sombras melancólicas dos ermos,

  Nos recantos dos mundos inferiores,

  Onde a luz é penumbra tênue e vaga,

  Que, sem vigor, fraquíssima, se apaga

  Ao furacão indômito das dores.


  2 Voracidade onde a alma se mergulha,

  Apoucado Narciso que se orgulha

  Na profundeza ignota dos abismos

  Da carne, que, estrambótica, apodrece;

  Que atrofiada, hipertrófica, parece

  Cataclismo dos grandes cataclismos.


  3 Prendermo-nos ao fogo dos instintos,

  Serpentes entre escrófulas e helmintos,

  Multiplicando as lágrimas e os trismos,

  Tendo a alma — centelha, luz e chama —

  Amalgamada em pântanos de lama,

  Em sexualidades e histerismos.


  4 Misturarmos clarões de sentimentos

  Entre vísceras, nervos, tegumentos,

  Na agregação da carne e dos humores,

  Atrocidade das atrocidades;

  Enegrecermos luminosidades

  Na macabra esterqueira dos tumores.


  5 E nisto achar fantásticos prazeres,

  Ilusão hiperbólica dos seres

  Bestializados, materializados;

  Espíritos em ânsias retroativas,

  No transcorrer das vidas sucessivas,

  Nas ferezas do instinto, atassalhados…


  6 Mas a análise crua do que eu via,

  Hedionda lição de anatomia,

  É mais que uma atrevida aberração;

  Que se quebre o escalpelo de meus versos:

  Entreguemos a Deus seus universos

  Que elaboram a eterna evolução.


EVOLUÇÃO

  1 Se devassássemos os labirintos

  Dos eternos princípios embrionários.

  A cadeia de impulsos e de instintos,

  Rudimentos dos seres planetários;


  2 Tudo o que a poeira cósmica elabora

  Em sua atividade interminável,

  O anseio da vida, a onda sonora,

  Que percorrem o espaço imensurável;


  3 Veríamos o evolver dos elementos,

  Das origens às súbitas asceses,

  Transformando-se em luz, em sentimentos,

  No assombroso prodígio das esteses;


  4 No profundo silêncio dos inermes,

  Inferiores e rudimentares,

  Nos rochedos, nas plantas e nos vermes,

  A mesma luz dos corpos estelares!


  5 É que, dos invisíveis microcosmos,

  Ao monólito enorme das idades,

  Tudo é clarão da evolução do cosmos,

  Imensidade nas imensidades!


  6 Nós já fomos os germes doutras eras,

  Enjaulados no cárcere das lutas;

  Viemos do princípio das moneras,

  Buscando as perfeições absolutas.


HOMO

I

  1 Ao meu tétrico olhar abominável,

  O homem é fruto insólito da ânsia,

  Heterogeneidades da Substância,

  Argamassando um Todo miserável.


  2 Psique dolorosa e inexpressável

  Na mais remota epíspase da infância,

  Desde a mais abscôndita reentrância

  Da sua embriogenia detestável.


  3 Do intravascular princípio informe,

  Larva repugnante e vermiforme,

  Nos íntimos recôncavos da placenta.


  4 À quietação dos túmulos inermes,

  Era um feixe de mônadas de vermes,

  Dissolvidos na terra famulenta.


II

  1 Após a introspecção do Além da Morte.

  Vendo a terra que os próprios ossos come,

  Horrente a devorar com sede e fome

  Minhas carnes em lúbrico transporte,


  2 Vi que o «ego» era o alento flâmeo e forte

  Da luz mental que a morte não consome.

  Não há luta mavórtica que o dome,

  Ou venenada lâmina que o corte.


  3 Depois da estercorária microbiana,

  De que o planeta triste se engalana

  Nas grilhetas do Infinitesimal,


  4 Volve o Espírito ao páramo celeste,

  Onde a divina essência se reveste

  Da substância fluida, universal.


INCÓGNITA

  1 Por que misterioso incompreensível

  Vomito ainda em náuseas para o mundo

  Todo o fel, toda a bílis do iracundo,

  Se eu já não tenho a bílis putrescível?


  2 Insondável arcano! porque inundo

  Meu exótico ser ultra-sensível

  Em plena luz e atendo ao gosto horrível

  De apostrofar o pobre corpo imundo?


  3 Fluidos teledinâmicos me servem,

  Transmitindo as ideias que me fervem

  No cérebro candente, ígneo, em brasa…


  4 De que concavidade do Universo

  Vem-me o açoite flamívomo do verso

  Chama da mesma chama que me abrasa?


“EGO SUM”

1 Eu sou quem sou. Extremamente injusto

Seria, então, se não vos declarasse,

Se vos mentisse, se mistificasse

No anonimato, sendo eu o Augusto.


2 Sou eu que, com intelecto de arbusto,

Jamais cri, e por mais que o procurasse.

Quer com Darwin, com Haeckel, com Laplace,

Levantar-me do leito de Procusto.


3 Sou eu, que a rota etérica transponho

Com a rapidez fantástica do sonho,

Inexprimível nas termologias,


4 O mesmo triste e estrábico produto,

Atramente a gemer a mágoa e o luto,

Nas mais contrárias idiossincrasias.


DENTRO DA NOITE

1 É noite. À Terra volvo. E, lúcido, entro

Em relação com o mundo onde concentro

O espírito na queixa atordoadora

Da prisioneira, da perpétua grade,

— A misérrima e pobre Humanidade,

Aterradoramente sofredora!


2 Ausculto a humana dor, que hórrida sinto,

Dalma quebrando o cárcere do instinto,

Buscando ávida a luz. Por mais que sonde,

Mais o enigma do mundo se lhe aviva,

Em diferenciação definitiva,

Mais a luz desejada se lhe esconde!


3 É o quadro mesológico, tremendo,

De tudo o que ficou no abismo horrendo

Da tenebrosa noite dos gemidos;

São uivos dos instintos jamais hartos,

As dores espasmódicas dos partos,

A desgraça dos úteros falidos.


4 É a ânsia afrodisíaca das bocas,

Que nas bestialidades se unem loucas,

As bactérias mais vis ambas trocando;

As dolorosas mágoas dos enfermos,

Sentindo-se em seus leitos como em ermos,

Deplorando o destino miserando.


5 São os ais dos leprosos desprezados,

Tendo os seus organismos devastados

Pela fome insaciável dos micróbios,

Sentindo os próprios membros carcomidos,

Verminados, cruéis, apodrecidos,

Plantando a dor no chão dos seus cenóbios…


6 É o grito, o anseio, a lágrima do homem

Agrilhoado aos prantos que o consomem,

Preso às dores que se lhe agrilhoaram;

É a imprecação de todos os lamentos

Dentro do mundo de padecimentos,

Dos desejos que não se realizaram.


7 Pábulo sou dessa hórrida agonia

E nos abismos de hiperestesia

Experimento, além das catacumbas,

Essa angústia indomável, atrocíssima,

Junto da emanação requintadíssima

Do ácido sulfídrico das tumbas,


8 Trazendo dentro dalma, envoltos na ânsia,

Asco e dó, piedade e repugnância

Pelo espírito e o corpo nauseabundo;

E com os meus pensamentos desconexos,

Vejo a guerra pestífera dos sexos,

Abominando as coisas deste mundo.


9 Terra!… e chegam-me fortes cheiros acres,

Como o cheiro de sangue dos massacres,

Fétido, coagulado, decomposto,

Escorrendo num campo de batalhas

Onde as almas se vestem de mortalhas,

Desde o sol-posto, ao próximo sol-posto.


10 Apavora-me o horror dessa miséria

E fujo da imundície da matéria,

Onde traguei meus grandes amargores;

Fujo… E ainda transpondo o Azul sereno,

Sinto em minhalma o tóxico, o veneno

E a desdita dos seres sofredores.


HOMEM-CÉLULA

  1 Homem! célula ainda escravizada

  Nos turbilhões das lutas cognitivas,

  Egressa do arsenal de forças vivas

  Que chamamos — estática do Nada.


  2 Sob transformações consecutivas,

  Vem dessa Origem indeterminada,

  Onde se oculta a luz indecifrada

  Dos princípios das luzes coletivas.


  3 Vem através do Todo de elementos,

  Em sucessivos aperfeiçoamentos,

  Objetivando a Personalidade,


  4 Até achar a Perfeição profunda

  E indivisível, pura, e se confunda,

  No transcendentalismo da Unidade.


NA IMENSIDADE

  1 Alma humana, alma humana, tu que dormes

  Entre os grandes colossos desconformes

  Da carne, essa voraz liberticida,

  Desse teu escafandro de albuminas,

  Em tua mesquinhez não imaginas

  A intensidade esplêndida da Vida!


  2 Inda não vês e eu vejo panoramas

  De luz em gigantescos amalgamas

  De sóis, nas regiões imensuráveis,

  Auscultando os espaços mais profundos

  Na sinfonia harmônica dos mundos,

  Singrando a luz de céus incomparáveis.


  3 Do teu laboratório de arterites,

  De gangliomas, úlceras, nevrites

  Ao lado de humaníssimas vaidades,

  Não podes perceber as ressonâncias,

  Quinta-essências de todas as substâncias

  Na fluidez das eletricidades.


  4 Aqui não há vertigens de nevróticos,

  Nem bisonhos aspectos de cloróticos

  Nas estradas de eternos otimismos!

  A vida imensa é coro de grandezas,

  Submersão nas fluídicas belezas,

  Envergando os etéreos organismos.


  5 Ante a minhalma fulgem ideogramas,

  Pensamentos radiosos como chamas,

  Combinações no Mundo das Imagens;

  São vibrações das almas evolvidas

  E que, concretizadas e reunidas,

  Formam luminosíssimas paisagens…


  6 Em pleno espaço — Imensidade de ânsias,

  Sem aritmologias das distâncias,

  Sem limites, sem número, sem fim!

  Deus e Pai, ó Artista Inimitável,

  Deixai meu ser esdrúxulo, execrável,

  No prolongado e edênico festim!


“ALTER EGO”

  1 Da morte estranha que devora as vidas,

  Eis-me longe dos rudes estertores,

  Sem guardar os micróbios homicidas

  De eternos atavismos destruidores.


  2 Tenho outro ser talhado pelas dores

  De minhas pobres células falidas,

  Que se putrefizeram consumidas

  Com os seus instintos atordoadores.


  3 Não sou o homúnculo da hominal espécie,

  Da terrígena raça que padece

  Das mais pungentes heteromorfias.


  4 Mas contérmino à carne, que me aterra,

  Envolvo-me nos fluidos maus da Terra,

  E sou o espectro das anomalias.


AOS FRACOS DA VONTADE

  1 Homem, levanta o véu do teu futuro,

  Troca o prazer sensualista e obscuro

  Pelo conhecimento da Verdade.

  Fogo do escuro ergástulo do mundo

  E abandona o Desejo moribundo

  Pelo poder da tua divindade.


  2 Teu corpo é todo um orbe grande e vasto.

  Livra-o do mal onífero, nefasto,

  Com a espada resplendente da virtude;

  Que o sol da tua mente, eterno, esplenda,

  Dando a teu mundo a mágica oferenda

  Da alegria em divina plenitude.


  3 Deixa o conjunto de ancestralidades

  Da carne — o eterno símbolo do Hades —

  Onde o espírito clama, sofre e chora:

  Deixa que as tuas glândulas do pranto

  Te salvem do cadinho sacrossanto

  Da lágrima pungente e redentora.


  4 Mas, sobretudo, observa o pensamento

  Fonte da força e altíssimo elemento

  Em que toda molécula se cria:

  Da existência ele faz sepulcro abjeto

  Ou jardim luminoso e predileto,

  De arcangélicas flores de Harmonia.


  5 Ouve-te sempre a ronda do mistério,

  Mas faze de tua alma um grande império

  De beleza, de paz e de saúde:

  Que as tuas agregações moleculares

  Vivam livres de todos os pesares,

  Com os tônicos sagrados da Virtude.


  6 Tua vontade esclarecida e forte

  Triunfará das angústias e da morte

  Além dos planos tristes da matéria,

  Mas a tua vontade enfraquecida

  É a meretriz no báratro da vida,

  Amarrada no catre da miséria!


AO HOMEM

  1 Tu não és força nêurica somente,

  Movimentando células de argila,

  Lama de sangue e cal que se aniquila

  Nos abismos do Nada eternamente;


  2 És mais, és muito mais, és a cintila

  Do Céu, a alma da luz resplandecente,

  Que um mistério implacável e inclemente

  Amortalhou na carne atra e intranquila.


  3 Apesar das verdades fisiológicas,

  Reflexas das ações psicológicas,

  Nas células primevas da existência,


  4 És um ser imortal e responsável,

  Que tens a liberdade incontestável

  E as lições da verdade na consciência.


MATÉRIA CÓSMICA

  1 Glória à matéria cósmica, a energia

  Potencial que dá vida aos elementos,

  Base de portentosos movimentos

  Onde a Forma se acaba e principia.


  2 Sistematização dos argumentos

  Que elucidam a Teleologia:

  Dentro da força cósmica se cria

  A fonte-máter dos conhecimentos.


  3 É do mundo o Od ignoto, o éter divino,

  Onde Deus grava a história do destino

  Dos seus feitos de Amor no Amor imersos.


  4 Livro onde o Criador Inimitável

  Grava, com o pensamento almo e insondável,

  Seus poemas de seres e universos.


RAÇA ADÂMICA

  1 A Civilização traz o gravame

  Da origem remotíssima dos Árias,

  Estirpe das escórias planetárias,

  Segregadas num mundo amargo e infame


  2 Árvore genealógica de párias,

  Faz-se mister que o cárcere a conclame,

  Para a reparação e para o exame

  Dos seus crimes nas quedas milenárias.


  3 Foi essa raça podre de miséria

  Que fez nascer na carne deletéria

  A esperança nos Céus inesquecidos;


  4 Glorificando o Instinto e a Inteligência,

  Fez da Terra o brilhante gral da Ciência,

  Mas um mundo de deuses decaídos.


A SUBCONSCIÊNCIA

  1 Há, sim, a inconsciência prodigiosa

  Que guarda pequeninas ocorrências

  De todas as vividas existências

  Do Espírito que sofre, luta e goza.


  2 Ela é a registradora misteriosa

  Do subjetivismo das essências,

  Consciência de todas as consciências,

  Fora de toda a sensação nervosa.


  3 Câmara da memória independente,

  Arquiva tudo rigorosamente

  Sem massas cerebrais organizadas,


  4 Que o neurônio oblitera por momentos,

  Mas que é o conjunto dos conhecimentos

  Das nossas vidas estratificadas.


ESPÍRITO

  1 Busca a Ciência o Ser pelos ossuários,

  No órgão morto, impassível, atro e mudo;

  No labor anatômico, no estudo

  Do germe, em seus impulsos embrionários;


  2 Mas só encontra os vermes-funcionários

  No seu trabalho infame, horrendo e rudo,

  De consumir as podridões de tudo,

  Nos seus medonhos ágapes mortuários.


  3 No meio triste de cadaverinas

  Acha-se apenas ruína sobre ruínas,

  Como o bolor e o mofo sob as heras;


  4 A alma que é Vibração, Vida e Essência,

  Está nas luzes da sobrevivência,

  No transcendentalismo das esferas.


VIDA E MORTE

  1 A morte é como um fato resultante

  Das ações de um fenômeno vulgar,

  Desorganização molecular,

  Fim das forças do plasma agonizante.


  2 Mas a vida a si mesma se garante

  Na sua eternidade singular,

  E em sua transcendência vai buscar

  A luz do espaço, fúlgida e distante!


  3 Vida e Morte — fenômenos divinos,

  Na ascendência de todos os destinos,

  Do portentoso amor de Deus oriundos…


  4 Vida e Morte — Presente eterno da Ânsia,

  Ou condição diversa da substância,

  Que manifesta o espírito nos mundos.


NOS VÉUS DA CARNE

  1 Na ilusão material da carne espúria,

  Sob o acervo das células taradas,

  Choram de dor as almas condenadas

  Ao cárcere de lágrima e penúria.


  2 Entre as sombras das míseras estradas,

  Vê-se a guerra da inveja e da luxúria,

  Esfacelando com medonha fúria

  O coração das almas bem formadas.


  3 É nesse turbilhão de dor e de ânsia

  Que o homem procura a eterna substância

  Da verdade suprema, alta, imortal.


  4 Deixando corpos pelos cemitérios,

  A alma decifra o livro dos mistérios

  De luz e amor da vida universal.



HOMEM DA TERRA

  1 Na sombra abjeta e espessa das estradas,

  Vive o homem da Terra adormecido,

  No horrendo pesadelo de um vencido

  Entre milhões de células cansadas.


  2 Prantos sinistros! Loucas gargalhadas,

  Pavorosos esgares de gemido,

  E lá vai o fantasma embrutecido

  Pelas sombras de lôbregas jornadas.


  3 Homem da Terra! trágico segredo

  De Miséria, de Horror, de Ânsia e de Medo,

  Feito à noite de enigma profundo!…


  4 Anjo da Sombra, mísero e perverso

  És o sentenciado do Universo

  Na grade organogênica do mundo.


NAS SOMBRAS

  1 Bombardeios. Canhões. Trevas. Muralhas.

  E rasteja o dragão horrendo e informe,

  Espalhando a miséria e o luto enorme

  Em miserabilíssimas batalhas.


  2 Visões apocalípticas do mal,

  Desenhadas por corvos vagabundos,

  Gritam a dor de povos moribundos

  Na sinistra hecatombe universal.


  3 A civilização do desconforto,

  De mentira e veneno cerebrais,

  Vai carpindo nos tristes funerais

  Do seu fausto de sombra, amargo e morto.


  4 Quadros de sangue, lágrimas e horrores

  Avassalam de dor o mundo inteiro,

  É o triunfo terrível do coveiro,

  Ossuários tremendos sob as flores.


  5 Enquanto a desventura chora inerme,

  O homem, filosófico ou sem nome,

  Morre de frio e fel, de sede e fome,

  Nas vitórias fantásticas do verme.


  6 Ai de vós nos abismos da aflição,

  Sem o raio de luz da crença amiga:

  Desventurado aquele que prossiga

  Sem o Cristo de Amor no coração.


CONFISSÃO n

  1 Também eu, mísero espectro das dores

  No escafandro das células cativas,

  Não encontrei a luz das forças vivas,

  Apesar de ingentíssimos labores.


  2 Bem distante das causas positivas,

  Na visão dos micróbios destruidores,

  Senti somente angústias e estertores,

  No turbilhão das sombras negativas.


  3 Foi preciso «morrer» no campo inglório,

  Para encontrar esse laboratório

  De beleza, verdade e transformismo!


  4 A Ciência sincera é grande e augusta,

  Mas só a Fé, na estrada eterna e justa,

  Tem a chave do Céu, vencendo o abismo!…


HOMEM-VERME

  1 Desolação. Terror e morticínio.

  O homem sôfrego e bruto, de ânsia em ânsia,

  Sofre agora a sinistra ressonância

  De sua inclinação para o extermínio.


  2 É o doloroso e trágico domínio

  Do «homo homini lupus» da ignorância.

  Exaltando a vaidade sem substância,

  Ídolo podre sobre o esterquilínio.


  3 Por toda a parte, escorre o sangue horrível,

  Ao crepitar de rúbidos incêndios,

  Sobre a ideia cristã medrando em germe.


  4 Em quase tudo, o pântano terrível,

  De lodo e lama, em sombra e vilipêndios,

  Atestando as vitórias do homem-verme!


GRATIDÃO A LEOPOLDINA n

  1 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas,

  Beija, Augusto, este solo generoso,

  Que te guardou no seio carinhoso

  O escafandro das células escravas.


  2 Aqui, buscaste o campo de repouso,

  Depois das vagas ríspidas e bravas

  No mundo áspero e vão, que detestavas.

  E onde sorveste o cálice amargoso.


  3 Volta, Augusto, do pó que envolve as tumbas,

  Proclama a vida além das catacumbas,

  Nas maravilhas de seus resplendores.


  4 Ajoelha-te e lembra o último abrigo,

  Esquece o travo do tormento antigo

  E oscula a destra de teus benfeitores.


CIVILIZAÇÃO EM RUÍNAS

1 Todo o mundo moderno horrendo, em ruínas,

Deixa agora escapar o horrendo fruto

De miséria e de dor de pranto e luto,

Feito de sânie e de cadaverinas.


2 Em vão, sobre o Calvário áspero e bruto,

Sangrou Jesus em lágrimas divinas,

Sob as ofensas torpes e tigrinas

A tentarem-lhe o espírito incorruto.


3 Saturada de treva, angústia e pena,

A Civilização que se condena

Suicida-se num báratro profundo…


4 Porque na luz dos círculos da Terra,

Nos turbilhões fatídicos da guerra,

Ainda é Caim que impera sobre o mundo.


A LEI

1 Em reflexões misérrimas, absorto,

Raciocinava: — «O último tormento

É regressar à carne e ao sofrimento

Sem o triste fenômeno do aborto!…


2 Toda a amargura dalma é o desconforto

De retornar ao corpo famulento,

E apagar toda a luz do pensamento

Nas células de um mundo amargo e morto!…»


3 Mas, uma voz da luz dos grandes mundos,

Em conceitos sublimes e profundos,

Respondeu-me em acentos colossais:


4 — «Verme que volves dos esterquilínios,

Cessa a miséria de teus raciocínios,

Não insultes as leis universais.»


A UM OBSERVADOR MATERIALISTA

  1 Busca o talão dos velhos calendários.

  Desde o instante infeliz de Adão e Eva,

  Encontrarás teus gritos solitários,

  Enfrentando o pavor da mesma treva.


  2 Sempre a dúvida estranha que se ceva

  De terríveis problemas multifários,

  O mistério da célula primeva,

  Os impulsos dos sonhos embrionários.


  3 Pára, amigo… Não sigas na consulta:

  O detalhe anatômico te insulta,

  A molécula morta desafia.


  4 Se não tens coração que aceite a crença,

  Espera a mão da morte excelsa, e pensa,

  Que a carne volve ao pó, exangue e fria.


ANTE O CALVÁRIO

  1 Da terra do Calvário ardente e adusta,

  Entre prantos pungentes, o Cordeiro

  Da Verdade e da Luz do mundo inteiro

  Vive o martírio de sua alma augusta.


  2 Sobre a cruz infamérrima se ajusta

  A crueldade do espírito rasteiro

  Do homem que é sempre o tigre carniceiro,

  Enquanto grita a turba ignara e injusta.


  3 Depois de vinte séculos ingratos,

  Multiplicando Herodes e Pilatos,

  Correm de novo as lágrimas divinas;


  Pois, embora o Direito, o Livro e a Toga,

  A Humanidade triste inda se afoga

  No sangue escuro das carnificinas.


ATUALIDADE

  1 Torna Caim ao fausto do proscênio.

  A Civilização regressa à taba.

  A força primitiva menoscaba

  A evolução onímoda do Gênio


  2 Trevas. Canhões. Apaga-se o milênio.

  A construção dos séculos desaba.

  Ressurge o crânio do morubixaba

  Na cultura da bomba de hidrogênio.


  3 Mas, acima do império amargo e exangue

  Do homem perdido em pântanos de sangue,

  Novo sol banha o pélago profundo.


  4 É Jesus que, através da tempestade,

  Traz ao berço da Nova Humanidade

  A consciência cósmica do mundo.


.Augusto dos Anjos



[1] As mensagens: Alter ego; A subconsciência; Matéria cósmica; Ao homem; Raça adâmica; Na imensidade e Homem-célula foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A.


[2] As mensagens (Confissão) e (Homem-verme) foram também publicadas pela editora VL e são respectivamente a 13ª  e a 3ª lições do livro: “Luz na Escola”.


[3] Gratidão a Leopoldina — Poesia recebida em 18 de Junho de 1940, em Leopoldina, onde foi sepultado o poeta.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir