Testamento Xavieriano - Renúncia - 1ª Parte - Capítulo 5

Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Renúncia — Emmanuel — 1ª Parte


5


Na infância de Alcíone

1 Estabelecido o acordo de transferência para a Espanha,  †  na expectativa de possível viagem à América do Norte, Antero de Oviedo resolveu os negócios pendentes, conseguindo apurar consideráveis recursos para encetar vida nova.

Madalena Vilamil, mantendo rigoroso luto, aguardava paciente o curso dos acontecimentos. A dedicação de um médico da Corte restituíra-lhe, em parte, o movimento dos pés, sem poder, contudo, caminhar muitos passos. Mesmo em casa, era, não raro, obrigada a se arrimar em Dolores, sempre que teimava em permanecer de pé por mais tempo. A dor constante dos tornozelos havia desaparecido e isto já representava grande consolo. Continuava usando as fomentações receitadas, com enorme esperança de completa cura e encarava a partida, resignadamente, como providência inevitável na sua condição de viuvez. Interpelada por Antero, relativamente à cidade espanhola em que preferia residir e tratar-se até que pudessem visitar a América distante, escolheu Ávila  †  pelo doce atrativo que essa cidade sempre exercera em seu espírito. O sobrinho de D. Inácio concordou, satisfeito, alegando que a região de Castela Velha  †  lhe facultaria bom emprego de capitais; e, mais por temor de conhecidos que por conveniência, deliberou que a jornada não se faria pelos portos do Atlântico, mas pelo Mediterrâneo, obrigando-se os viajantes a verdadeira excursão por terra, até ao sul da França.


2 A viagem na direção de Marselha  †  foi difícil e penosa, não obstante Antero de Oviedo fazer o possível por demorar-se com as três companheiras nas cidades mais interessantes, a título de entretenimento e repouso.

Da janela dos carros, sempre trocados em cada posto de muda, Madalena contemplava os campos de França, tomada de imensa saudade e dando a impressão de que regressava ao berço natal como alguém que se sente perseguido pela realidade cruel, depois de um sonho bom.

Depois de muitos dias de jornada, defrontaram o antigo porto, vizinho da Catalunha.  †  Aí descansaram duas semanas, tomando em seguida um navio confortável, para a época, que os conduziria a Valência.  †  Uma vez acomodados com imensos sacrifícios para Madalena, que se amparava em Dolores sustentando a filhinha ao colo, eis que Antero reencontra velho amigo da infância, abraçando-se ambos com ruidosa alegria.

Federigo Izaza e o sobrinho de D. Inácio, depois de muito conversarem sobre inúmeros problemas, como sói acontecer a conhecidos que se não veem de há longos anos, passaram a tratar do regresso do fidalgo à Espanha. Antero confessou o intuito de mobilizar os capitais trazidos da França, na perspectiva de bons negócios. Izaza, sem que ele percebesse, tem estranho brilho nos olhos argutos e exclama: — Pois veja que feliz acaso nos aproxima! É que tenho justamente em mãos o melhor negócio dos últimos tempos.

— Como assim? — interroga o rapaz, curioso.

— Conheces o mercado de escravos para as colônias estrangeiras?


3 Em face da atitude de estranheza do interlocutor, Federigo prosseguiu animadamente:

— É a negociação mais rendosa nos tempos que correm. Como não ignoras, o novo Continente necessita do braço escravo. Os emigrantes da Europa não poderiam atacar, sozinhos, o desbravamento do solo. As epidemias, as dificuldades, as florestas inóspitas, destruiriam os organismos delicados e, com alguns navios e poucos homens de confiança, é possível obter uma fonte de lucros opimos, com esforço quase insignificante.

— Mas… como? — inquiriu o outro.

— Bastam algumas naus corajosas que visitem periodicamente a Costa d’África.

— Apenas isso?

— Nada mais. A troco de pequeninas bugigangas, conseguimos elevado número de selvagens que, sem embargo do cativeiro, passam a gozar os benefícios da civilização. De modo que — explicava Izaza na atitude egoísta do homem que deseja mascarar propósitos execráveis — além de vingarmos transações lucrativas, ainda espalhamos numerosos benefícios entre os negros bárbaros, de costumes primitivos.

Depois de uma pausa, entrava em outros pormenores:

— Acredito que chegas à Espanha em momento azado aos teus interesses, porquanto eu e meus irmãos necessitamos de um sócio capitalista para incremento de grandes iniciativas. Dispondo apenas de um navio, temos perdido ótimas oportunidades nos mercados mais rendosos. As colônias inglesas, francesas e portuguesas são grandes centros de consumo.


4 E o astuto amigo passava a minudenciar e encarecer a importância de lucros tão fáceis, seduzindo o companheiro para o risco das largas aventuras.

As palestras renovavam-se durante toda a viagem, e, quando desembarcaram em Valência, Antero de Oviedo já estava convencido das vantagens do tráfico negro, decidido a entrar na empresa com todos os recursos disponíveis. Obrigado a conduzir o pequeno séquito até Ávila, despediu-se do amigo com a promessa de se encontrarem no mês seguinte, para tomar as providências definitivas.

A reduzida caravana descansou alguns dias antes de atravessar o Aragão,  †  em demanda das regiões de Castela antiga;  †  mas, no fim da segunda semana de permanência na Espanha, instalava-se em modesta vivenda a três quilômetros das portas da cidade onde Madalena recebera a melhor educação, num estabelecimento religioso das Carmelitas.


5 A paisagem não era bela. As águas do Adaja  †  vinham fertilizar a terra empedrada, com minúscula corrente roubada ao leito do rio, e algumas árvores frutíferas mitigavam a aridez do solo. Não fora uma casa-grande, próxima, em que o poderoso senhor D. Diego Estigarríbia movimentava grande patrimônio rural, e o modesto sitio mais se assemelharia a lugar malsinado, em abandono. Antero, porém, adquirira-o em definitivo, oferecendo-o à prima, que recebera a dádiva com satisfação justa e sincera.

Ao fundo da paisagem repontavam as torres das velhas muralhas da cidade famosa e os bronzes dos seus templos românticos enchiam o ambiente com dobres impregnados de dolorosas evocações.

Nos primeiros dias, Madalena Vilamil não saberia explicar a sensação de tristeza que intimamente a empolgava. Observava o casario a distância, experimentando impressões indefiníveis. Aquelas muralhas antigas, com as suas oitenta e seis torres originalíssimas, falavam-lhe à alma sensível. Sentia-se encarcerada, presa de receios estranhos, num conjunto de sensações amargas que a desolação da terra empobrecida mais acentuava.


6 Uma vez terminados os serviços da instalação, Antero viajou para Madrid,  †  a cuidar dos novos interesses. O rapaz, entretanto, fora das disciplinas a que o submetiam os protocolos franceses de Versalhes e Paris, e sem a assistência afetiva de D. Margarida, que maternalmente se desvelara pela sua pureza de hábitos e de caráter, entregou-se, logo no primeiro contato com a capital espanhola, a perigosas dissipações, com lamentável ausência de escrúpulos. Federigo Izaza, de posse da presa fácil, conduzia-o dia a dia ao total esquecimento de suas obrigações. Assim, empregou a maior parte da fortuna nas aventuras do tráfico negreiro, assinando compromissos de vulto com agiotas e financistas astuciosos e inflexíveis. Como se desejasse desforrar os dias lúgubres da epidemia parisiense, lançou-se a noitadas alegres, cheias de prazeres e de vinhos caros. A princípio, recordava a prima e o ardor da paixão que o levara a participar de um crime; mas, com o egoísmo próprio da criatura humana, lembrava que Madalena continuava doente, incapaz de algo deliberar em consciência. Tentar impor-se à prima enferma, figurava-se-lhe extrema covardia. Era mais nobre aguardar ensejo adequado, e, até que o ensejo chegasse, ei-lo entregue à volúpia de gozos fáceis e aventuras perigosas.


7 Havia um mês que se ausentara. A filha de D. Inácio, no entanto, apesar da monotonia do seu pedaço de campo, procurava encarar as dificuldades com o heroísmo das almas crentes.

O primo não lhe havia deixado maiores recursos, mas, ainda assim, estava satisfeita. No íntimo, chegava a estimar aquela ausência. Compreendia bem os olhares que o rapaz lhe dirigira, em todo o percurso da longa viagem. Concluía mesmo, considerando as suas silenciosas atitudes, que a moléstia era, para ela, o maior escudo e o melhor antídoto contra aqueles propósitos inferiores. Subjugada pelo mal-estar da extrema dependência em que se encontrava, certo dia dirigiu-se a Dolores, encarecendo o valor de um trabalho mais intenso na vivenda empobrecida. Poderiam enriquecer o pomar de novas plantas, cultivar legumes para vender. A serva entusiasmou-se. Organizaram projetos de numerosos serviços. O terreno não era fértil, mas possuía bastante água. O trabalho e o adubo fariam o resto. A ideia conferiu a Madalena Vilamil novas forças. Andava com dificuldade, mas o desejo intenso de resolver o problema das despesas domésticas triplicava-lhe as energias. Na casa vizinha, a família Estigarríbia podia dispor de servos numerosos, mas a corajosa esposa de Cirilo não queria considerar a diversidade dos destinos e sim que havia trabalho a reclamar-lhe atenção. As atividades iniciais custaram-lhe esforços dolorosos. Às vezes, era tanta a dor nos pés que necessitava interromper a tarefa para repousar; todavia, auxiliada pela serva fiel, preparou e adubou o quintal, libertando as árvores frutíferas dos parasitas que as sufocavam. Faltavam sementes e mudas de plantas mas Dolores, que tinha um gênio alegre e comunicativo, prometeu que as pediria a um dos servos da casa vizinha, na primeira oportunidade. Entre os rapazes de cor bronzeada que trabalhavam, invariavelmente, no campo próximo, a jovem desde muito havia fixado um que sempre a observava com atenção. Valeu-se dessa circunstância e no primeiro ensejo, entabulou ligeira conversa com o simpático desconhecido, junto a tapada que dividia as propriedades. Tratava-se de um semiliberto da família Estigarríbia, que chefiava os companheiros de serviço. Ele e os subordinados não eram escravos, propriamente, mas haviam nascido cativos em colônia portuguesa. D. Diego e o filho, D. Alfonso tinham grandes interesses no tráfico de homens livres e haviam selecionado os melhores operários para os labores da grande fazenda de Castela-a-Velha.  † 


8 João de Deus, o servo que narrava a Dolores as suas lutas na vizinhança, contemplava a criada de Madalena com expressão de enorme alegria e grande bondade. Atendendo-lhe ao pedido, prometeu as sementes e mudas, e, como dispusesse de folga nos domingos, depois da missa, ofereceu-se para cooperar semanalmente na horta que pretendiam plantar.

Com pleno assentimento da filha de D. Inácio, que lhe notou, de pronto, as qualidades apreciáveis, o servo dos Estigarríbia passou a frequentar a casa aos domingos, contribuindo decididamente para enriquecimento do quintal.

Horas a fio, João de Deus historiava às duas mulheres o martírio dos cativos nas colônias remotas. Elas mal continham o seu assombro. Parecia-lhes incrível houvesse cidades no mundo, onde os filhos eram separados dos pais amorosos e vendidos a senhores bárbaros e execráveis. O rapaz contava-lhes as cenas bárbaras do tronco, do chicote a lanhar carnes vivas, das pesadas correntes atadas aos pés dos que tentavam fugir. Aquelas narrativas levavam ao coração da esposa de Cirilo indefiníveis consolos. Considerava que havia terras onde mourejavam criaturas muito mais sacrificadas e sofredoras do que ela própria. Confidencialmente, João lhes explicava sua condição pessoal. Em verdade, não havia cativeiro ali na fazenda, cumprindo-lhe todavia proceder e agir como escravo dos Estigarríbia, se não quisesse voltar à colônia, para ser talvez posto a ferros. Nada valeriam reclamações, pois D. Diego era irmão de um bispo assaz poderoso. Conquistara-lhe simpatia e, por isso, aprendera a ler e contar, assumindo então o cargo de feitor.

Para Madalena, essas confidências acarretavam sempre veladas consolações e foi com bons olhos que notou a crescente afeição do jovem par.


9 Somente depois de três meses de boêmia e aventuras em Madrid, na perniciosa comparsaria de Federigo Izaza, voltou Antero a casa, completamente modificado em seus hábitos e atitudes. Não comentava senão as vantagens do ouro fácil e explanava largos projetos para aquisição de minas em Potosí.  †  A transformação da humilde herdade surpreendeu-o. Em todos os recantos havia alguma coisa diferente. Ali, a água multiplicara benefícios ao solo; aqui, surgia um canteiro de legumes; acolá, as árvores pareciam mais verdes e vigorosas. Miraculosas mãos haviam tratado a terra empobrecida. Acentuando o quadro agradável, Madalena estava mais bela, embora lhe pairasse no rosto, invariavelmente, um véu sutil de invencível tristeza. Sua saúde melhorara, de modo geral. Já podia permanecer de pé mais de uma hora, sem necessidade de repousar. Consagrava-se ao lar e à filha com heroico devotamento. Antero de Oviedo, contemplando-lhe a feição de madona, sentiu reavivar-se a paixão que o atormentava desde a infância.

No segundo dia de sua chegada, procurou entreter com ela afetuosa palestra, minudenciando o êxito superficial das suas transações em Madrid.

Enquanto a conversação não se desviava dos moldes fraternais, a prima lhe correspondia de boamente despreocupada em defender-se; mas a certa altura, o rapaz fixou nela os olhos brilhantes e disse:

— Sinto que não devo ocultar, por mais tempo, as minhas intenções; suponho poder agora falar do meu imenso amor.


10 A noite já se fechara de todo, desdobrando seu manto de sombras pela paisagem ambiente.

— Mas que queres dizer com isso? — interrogou a prima, adivinhando-lhe os propósitos íntimos.

— Ofereço-te meu braço forte nas lutas da vida. Seremos felizes, podes crer. Espero consolidar minha fortuna a breve trecho. Meus negócios atuais auspiciam lucros fabulosos. Construiremos um lar repleto de ventura. Não importa o passado, as amarguras vividas. Compreendo como o sopro da adversidade desfez teus sonhos de moça; entretanto, não julgues ser a única a sofrer. Sigo-te os passos, silenciosamente, desde os primeiros albores da nossa juventude. E quando surgiu o intruso Davenport, só eu sei do ódio que me envenenou a alma. Agora, porém, a estrada da nossa ventura apresenta-se plana e livre.

Ela ouvia-o sem dissimular a profunda surpresa que lhe assaltava o coração. Depois de refletir um minuto, respondeu delicada e firmemente:

— Tua confissão me sensibiliza e, no entanto, essa realidade é impossível, de vez que o verdadeiro amor transcende a todas as contingências do mundo. Minha escolha foi e permanece única, irredutível.

O rapaz demonstrou a contrariedade num gesto espontâneo e insistiu:

— Mas não te consideras liberta pela viuvez? Não seria loucura consagrar o resto da vida ao luto e às lembranças da morte?

— Para mim — respondeu revelando profunda serenidade — a viuvez significa pesar inconsolável e não disponibilidade do coração.


11 O moço espanhol mordeu os lábios e exclamou desapontado:

— É quase incrível te proponhas tão absurdo sacrifício por um homem que se ausentou para uma aventura arriscada, quase na lua de mel.

— Mas Cirilo assim procedeu em obediência a circunstâncias imperiosas.

— Não creio.

— No entanto, não podes negar a enorme diferença de vantagens entre a Corte de Versalhes  †  e a Sorbona.  † 

— Mas, no caso — tentava explicar o sobrinho de D. Inácio, colérico — não poderás invocar os salários franceses e sim examinar o problema da dedicação e do amor.

— Esqueces, entretanto — esclareceu a suposta viúva —, que Cirilo tinha pais carinhosos e necessitados, além de irmãos mais novos e carentes do seu auxílio. Fora um crime sequestrá-lo à mãe desvelada, que o acariciara nos braços, muito antes da minha afeição. Aliás, ele tudo fez para que o acompanhasse ao continente distante e tu não ignoras que a enfermidade de mamãe me forçou a ficar em Paris, bem a meu pesar. Cirilo nunca me exprobrou essa conduta involuntária, e também eu não podia recriminar-lhe o impulso generoso de socorrer os seus.


12 Reconhecendo que as armas do seu despeito eram inúteis, Antero ensaiou outros argumentos, murmurando com certa ansiedade:

— Afinal de contas, suponho que devas ser mais cordata e razoável…

— É-me impossível transigir no que representa, para mim, sagrados deveres, apenas.

— Não te apegues a recordações doentias. És jovem e posso fazer-te feliz. Tenho trabalhado a vida toda para realizar o ideal de nossa união. Sonho com um lar ridente, um ditoso porvir.

— E nem deves perder a esperança de um futuro venturoso — mas há que reformular o objetivo de tuas aspirações. Minha prova conjugal está encerrada: a tua, porém, ainda não começou. A Espanha está cheia de nobres raparigas e não será difícil encontrares uma companheira dedicada e digna do teu destino. É verdade que jamais nos poderíamos unir pelos laços do matrimônio, mas eu serei tua irmã reconhecida, enquanto me restar um sopro de vida. Conheço a extensão dos teus sacrifícios por mim e beijo-te as mãos. Nada possuindo, entretanto, com que te demonstre minha sincera gratidão, feliz me julgaria em poder, a qualquer tempo, dar meus carinhos de mãe aos filhinhos de tua esposa. Deus te ajudará, concedendo-te alguma jovem rica de sentimentos, digna, enfim, do teu coração.


13 Essas palavras, ditas em tom de carinhosa e fraternal sinceridade, desarmavam o rapaz, que se sentia enleado nos mais contraditórios pensamentos.

— Ainda ontem, Madalena — dizia insistente nos mesmos propósitos —, adquiri uma casa confortável, junto à igreja de S. Tomás,  †  a fim de lá te instalar com Dolores e Alcíone.

— Agradeço, Antero — mas a verdade é que não pretendo sair desta chácara. Jesus me facultará, um dia, os meios de retribuir teus benefícios, pois reconheço que não podemos exigir novos gastos de tua parte. Já temos plantas a cuidar, os pequenos proventos da horta atendem às nossas modestas necessidades caseiras. Como vês, é ocasião de pensar em ti mesmo, na administração dos teus negócios.

Ele compreendeu que a prima preferia renunciar a qualquer nova expressão de conforto, para emancipar-se do seu ascendente, e manifestou-se presa de incontido despeito. A expressão de ternura foi substituída pela de cólera extrema. No íntimo, experimentou diabólico prazer ao recordar o pacto com Susana. Tomava a resistência de Madalena à conta de orgulho feminino, mas essa resistência aguçava-lhe os intentos criminosos de perseguição e de posse.

Aproximou-se mais e teimou, ardentemente:

— Deste-me tuas razões, defendeste o irlandês intruso, induzes-me a procurar alhures a ventura conjugal, mas eu não renuncio. Consente que me aproxime do teu coração, a fim de te reanimar para a vida. Somos jovens, o futuro nos chama…


14 Entretanto, a um gesto mais significativo, a pobre senhora retraiu-se e falou nobremente:

— É impossível e espero te contenhas nos limites devidos. Ainda que a lembrança de meu marido não chegue a demover-te, recorda que a sombra de minha mãe se levanta entre nós.

A recordação de D. Margarida produzira extraordinário efeito. Antero, muito pálido, retrocedeu, como se obedecesse a uma imposição do plano invisível.

A filha de D. Inácio, assumindo atitude serena, valeu-se da circunstância e prosseguiu:

— Concordo em que os nossos antepassados tenham tido numerosos defeitos, mas não me consta que um Vilamil, algum dia, houvesse abusado de uma irmã viúva e enferma.

Ouvindo a objurgatória formulada com enérgica inflexão de voz, o rapaz corou e retirou-se para o seu quarto, não sem dizer:

— Mudarás de opinião, mais cedo ou mais tarde.

Desde essa noite, não voltou a falar dos seus propósitos malsãos, e, embora esperasse a oportunidade de uma capitulação ditada pelos extremos de uma vida mísera quão desolada, pareceu desinteressar-se completamente do assunto. Não permanecia na chácara de Ávila mais que uma semana, de três em três meses. Agora fazia questão de corresponder à resistência de Madalena com frieza fraternal. Além disso, os prazeres madrilenos modificavam-lhe os rumos da sorte. As más companhias arruinavam-lhe o caráter. Havia muito dinheiro para os divertimentos licenciosos, mas, começava-se a indagar das suas origens.


15 Três anos são passados.

Madalena Vilamil lutava heroicamente. A pobreza dos terrenos de Castela-a-Velha  †  exigia muitos sacrifícios a qualquer cultura agrícola, mas, por isso mesmo, suas plantações regulares tornaram-se utilíssimas. Dolores voltava, todas as manhãs, do mercado de legumes com diminutos, mas, ainda assim, suficientes recursos à provisão doméstica. A dona da casa tudo atribuía e agradecia a Deus, e a vida continuava. As ausências prolongadas do primo eram consideradas como tréguas, para seu alívio. Desde aquela noite inolvidável, ele parecia contemplá-la com expressão de rancor. Sempre que vinha, era para sobressaltar-lhe o coração. Além disso, ela preferia criar a filhinha sem caprichos satisfeitos. Aquele sítio avaro devia ser a sua primeira escola. Mais tarde, então, pediria às freiras Carmelitas que se incumbissem da sua educação intelectual; mas, como mãe, estava resolvida a tudo fazer para que Alcíone se habituasse mais cedo aos deveres laboriosos.

Assim corriam os dias, quando se espalharam em Ávila  †  estranhos boatos sobre a situação de Antero, em Madrid. Dizia-se que os Izaza estavam denunciados ao Santo Ofício  †  pelo rapto de crianças libertas, nas colônias da América e da África, e que o sócio responderia com os criminosos pela ação nefanda. Em suas visitas periódicas à granja, Madalena o informou das versões correntes, mas Antero ouviu-a risonho e displicente, alegando que se tratava, naturalmente, de puras balelas, fruto da inveja e despeito humanos.


16 Os meses corriam céleres e os boatos também cresciam de vulto.

Madalena preocupava-se. Dia houve em que procurou conhecer o que João de Deus sabia e pensava a tal respeito.

— Ah! senhora — replicou o pretendente de Dolores, em tom confidencial —, os Estigarríbias são senhores poderosos e não toleram quem lhes faça concorrência no tráfico dos cativos. Em Segóvia,  †  não há muito, dois navegantes corajosos foram assassinados por ordem deles. Em Valladolid  †  havia um grupo de homens operosos, que cuidavam do mesmo negócio, e um belo dia o Santo Ofício lhes confiscou os bens, sem justificativa, encarcerando-os para o resto da vida. D. Diego e D. Alfonso dispõem da autoridade do clero. Dizem que eles cedem aos inquisidores algo dos patrimônios conquistados, mantendo-lhes a simpatia constante. O bispo D. Leôncio Molina faz parte da família e não é fácil escapar-lhe à perseguição, com o auxílio dos missionários.

— Mas acreditas que tenham formulado alguma acusação contra Antero? — perguntou a filha de D. Inácio, naturalmente preocupada.


17 João de Deus alongou o olhar para além da porta, como a certificar-se de estarem realmente sozinhos e respondeu à surdina:

— Já ouvi qualquer coisa nesse sentido. Uma noite D. Alfonso participava ao pai que todas as providências estavam dadas em Madrid; que os santos padres em missão nas selvas remotas haviam representado à autoridade eclesiástica para que os Izaza e seus colaboradores fossem punidos sem mercê, por subtraírem crianças indefesas nas aldeias do litoral, e que os credores de D. Antero iam todos reclamar o pagamento de suas dívidas, a um só tempo.

A jovem Madalena muito impressionada, redarguiu:

— Será possível que haja pessoas capazes de raptar crianças inocentes?

— Nas colônias — esclareceu o servo — pode crer que existem homens cruéis a esse ponto; mas, neste caso, é possível que a acusação tenha partido daqui mesmo, dos Estigarríbia. Já ouvi dizer que, quando D. Diego era mais moço mandou prender o próprio pai.

Madalena Vilamil anotou mentalmente as tristes novas e procurou mudar o curso da conversa.


18 Nos dias imediatos, muito desejou comunicar-se com o primo, tentando salvar-lhe a reputação de homem digno, mas, reconhecendo a impossibilidade de o fazer, contentou-se em orar, encomendando-o a Deus, em preces fervorosas.

Ela, de si mesma, pouco a pouco habituara-se ao severo regime do contato direto com a natureza. A fisionomia, porém, denotava grande abatimento. Dividia as horas entre os labores domésticos e as meditações. Recordava, sempre, que seu primeiro projeto, em regressando à Espanha, fora encaminhar-se à América, à cata de notícias exatas da morte do marido. A atitude ulterior do primo adiara a realização dos propósitos que lhe animavam o espírito resoluto, mas não extinguira, de todo, o seu primeiro desígnio. É verdade que continuava doente dos pés, impossibilitada de agir como necessário, mas esperava no Altíssimo a recuperação da saúde para tentar, em companhia da filha, a grande aventura, tão logo se verificasse o casamento de Dolores. Nunca mais pudera alegrar-se, como nos dias risonhos da juventude distante, mas a filhinha resumia, agora, as suas divinas consolações.


19 Alcíone já se revelava uma criaturinha adorável nos seus quatro anos. Sentada, de rosto apoiado nas mãos, como “gente grande”, permanecia muitas horas ao lado da genitora, a ouvir historietas de fundo educativo. Madalena repetia-lhe, comovida, as lendas guardadas da sua própria infância. A pequena encarecia notícias dos príncipes encantados, dos gênios ocultos nos bosques; mas, quando escutava a palavra maternal sobre Jesus, seus olhos tornavam-se mais brilhantes e perguntava a razão por que os homens inventaram a cruz para o Salvador que Deus mandara à Terra.

Por vezes, na sua condição de criança isolada, sem companhia infantis, abandonava subitamente os brinquedos pobres e ia interrogar à mãe o que estaria fazendo Jesus. E ante as hesitações maternas, ela própria explicava mil coisas nas suas reflexões ingênuas e puras. Se fazia frio, afirmava que Cristo estava socorrendo os peregrinos que não tinham teto, e, nos dias de excessivo calor, supunha que suas mãos divinas estivessem acariciando as aves aflitas.

Madalena surpreendia-se. Aquelas ideias sublimes eram sempre espontâneas naquela boquinha mimosa.


20 A genitora ensinava-lhe a ser reconhecida a todos, a estimar as plantas da horta e a ser generosa para as árvores do quintal. Mandava-a em auxílio de Dolores, sempre que havia maior quantidade de frutos e legumes, destinados à feira da cidade vizinha. Alcíone era amável com a serva e conduzia um cesto minúsculo, muito convicta de contribuir eficazmente na solução dos problemas domésticos. E nos instantes em que Dolores se sentia cansada pelo sol ardente, supunha que lhe atenuava as fadigas beijando-a, porque sua mãe sempre dizia que o carinho era o único remédio que podia aliviar os corações sofredores. A criada era muito sensível a tais mostras de afeto e, às vezes, só para receber as carícias da criaturinha adorável, declarava-se exausta, junto à Porta de São Vicente,  †  ao terminar a parte mais afanosa da tarefa. E era quando Alcíone lhe tomava as mãos, em ósculos carinhosos.

Para Madalena e os dois únicos amigos que possuía na intimidade do lar, a pequenina se tornara em fonte de inefáveis alegrias.


21 De quando em vez, surgia com observações sutilíssimas, que suscitavam profundos pensamentos.

Certa feita, a canícula era quase insuportável e todos, ansiosos, desejavam chuva. Alcíone partilhava da inquietação geral e, instada por Dolores, fez de mãos postas as, preces que sua mãe lhe ensinava, pedindo a Deus não esquecesse as plantas ressequidas. O crepúsculo sobreveio carregado de pesadas nuvens e a criança, de minuto a minuto, ia à porta espiar o céu, como se aguardasse com certeza alguma coisa. Alta noite desabou torrencial aguaceiro. Cessada a borrasca, Madalena abriu a Janela, ansiosa pela frescura da noite. A pequenina seguiu-lhe os movimentos, de olhos muitos vivos e pediu que a deixassem na velha cadeira para contemplar o firmamento, onde haviam ressurgido os astros faiscantes. Depois de aspirar o ar puro que enchia o ambiente, exclamou, olhos fitos na altura, em solene atitude infantil:

— Agradeço muito.

— A quem falas, filha? Viste alguém ali na estrada? — perguntou Madalena com certa curiosidade.

— Estou falando com Deus, mamãe: a senhora não me disse que devo ser agradecida? Não pedimos hoje a água do céu?


22 A genitora não pôde disfarçar um gesto de admiração ao lhe observar a expressão de sincera confiança na Providência Divina.

Em seguida, Alcíone pareceu devassar a sombra da noite com os olhinhos indagadores e brilhantes, permanecendo em encantadora atitude de meditação. Depois, como se estivesse regressando de um oceano de reflexões, interrogou:

— Mamãe, onde é que a chuva trabalha?

— No seio da terra, filhinha. A água que desce do alto alimenta a raiz das árvores, lava as estradas por onde caminhamos, renova as fontes para que não soframos sede e, em todos os lugares por onde passa, espalha e entretém a vida.

— E quando tem chuva nos olhos? — continuou perguntando com sincera atenção.

— Mas que desejas dizer com isso, Alcíone? — tornou Madalena impressionada.

— É porque, às vezes, mamãe, quando é de noite, os olhos da senhora estão cheios de chuva.


23 A pobre mãe compreendeu a alusão e explicou, assaz comovida:

— Ah! sim, filhinha, essa é a chuva das lágrimas e também desce do céu para nutrir e purificar o coração.

A pequenina pareceu refletir na resposta, voltou a contemplar as folhas gotejantes das árvores e inquiriu:

— Mamãe, quando é que vai chover nos meus olhos?

— Não penses nisso, filhinha!

E Madalena Vilamil torceu a palestra, distraindo-lhe a atenção.

De outra feita, Dolores trabalhava na chácara, acompanhada por Alcíone, que cavava o solo com minúsculo instrumento. Em dado instante, surge o “Lobo” — grande cão de D. Diego —, que tentava perturbar, todos os dias, os trabalhos da rapariga.

Dolores toma prestes de longa vara e, valendo-se da oportunidade, espanca o animal que debalde procura uma saída.

— Não batas assim no “Lobo”! — exclama Alcíone perturbada e aflita.


24 E como começasse a gritar, a serva falou baixinho:

— Sossega, minha filha! Vamos aproveitar enquanto estamos sem vigias no outro lado.

A menina, entretanto, esboçou um gesto significativo e lembrou:

— Mas nós não estamos aqui sozinhas. Jesus está conosco.

Anotando a advertência, a criada permitiu que o animal se safasse do círculo apertado em que se achava, e esclareceu, como quem se via obrigada a dar uma satisfação do seu ato:

— Este cão, Alcíone, é vagabundo e ladrão.

A pequena não respondeu de pronto, mas, dirigiu-se ao interior da casa a passos vagarosos, tomou o crucifixo de D. Margarida, sempre guardado à cabeceira da cama e encaminhou-se novamente ao quintal. Aproximando-se de Dolores que a observava, muito admirada, apontou, com muito carinho, para a escultura e esclareceu na sua linguagem infantil:

— Estás vendo, Dolores? Mamãe contou que, quando Jesus morreu, estava entre dois homens que roubavam.

— Pois bem — disse a empregada sorrindo em face da profunda advertência —, depois falaremos com D. Madalena sobre o caso desse cão.

E Alcíone voltou a guardar o crucifixo, com a impressão de que havia cumprido uma grande tarefa.


25 A vida na chácara continuava cheia da poesia que sempre adorna a pobreza resignada.

Outro tanto, porém, não acontecia ao sobrinho de D. Inácio. Parecia ele cada vez mais desorientado, desde o dia sinistro em que consentira no criminoso pacto com Susana Davenport. O destino não correspondera às suas expectativas de homem do mundo. A mentira sombria apenas espalhara remorsos terríveis no seu caminho, dos quais buscava evadir-se, pelos desregramentos de toda sorte. Seu projeto mesquinho sofrera o primeiro abalo no dia em que Madalena Vilamil não mais pudera erguer-se da cama, em Versalhes. Assediar a prima enferma, representava muita covardia a seus olhos. A moléstia, entretanto, não fora incidente simples, persistira semanas e semanas. Nesse ínterim, ela, Madalena, pela paciência demonstrada e pela maternal dedicação para com a filhinha recém-nata, crescera muito aos seus olhos, impedindo-lhe os ímpetos de suprema violência. E, desde a noite em que fizera alusão à sombra de D. Margarida, ele não mais a contemplava sem ver no seu rosto o da veneranda mãe adotiva, que o acariciara dos primeiros dias da infância. Passou, então, a frequentar raramente a chácara e no íntimo, chegava mesmo a pensar em uma viagem à América, para desfazer o engano terrível, de modo a esperar a velhice, sem a recordação de um crime na consciência. A nobre resistência da prima doente e sacrificada parecia impor-lhe a lembrança de D. Margarida, nos seus tempos de intraduzíveis amarguras. O moço espanhol, no entanto, desejava reparar a falta, com a devida prudência. Afinal de contas, no mais fundo d’alma, não obstante a situação que o sensibilizava, nunca deixara de considerar Madalena excessivamente orgulhosa. Além disso, receava desfazer a trama odiosa, sem ouvir antes a prima de Cirilo. Que teria acontecido na América durante aqueles longos quatro anos? Era preciso esperar para não incidir em novos desatinos.


26 No entanto, agora entregue à ideia reparadora, via-se presa dos Izaza, que o arrastavam a condenáveis desregramentos. Envolvido em negócios suspeitos e desmandado nos prazeres que lhe exauriam as forças, não pôde perceber a trama cavilosa que o colhia na sombra, devagarinho.

Quando menos se esperava, estalou em Ávila a triste nova: condenado pelo Santo Ofício  †  à prisão e confisco de todos os bens, Antero de Oviedo aparecera morto, em Madrid, junto à Porta de Toledo.  †  Falava-se à meia voz que ele havia preferido o suicídio à ignomínia do cárcere. Noutras rodas, porém, afirmavam que tudo não passava de mais um crime odioso da família Estigarríbia. O processo, como todas as peças em exame no tribunal do Santo Ofício, correra os trâmites no mais rigoroso sigilo. A condenação atingira Antero e companheiros, mas somente Gaspar Izaza fora recolhido à prisão, pois Federigo e Domingos haviam desaparecido misteriosamente.

O sobrinho de D. Inácio assim baixava ao túmulo com o grande segredo da sua vida, tão cedo crestada por sua incontinência e leviandade.


27 Madalena ainda não conseguira aliviar a angustiosa aflição que a atormentava, quando João de Deus bateu-lhe à porta, antes da alvorada. A pobre senhora assustou-se, mas o rapaz tinha motivos para apressar-se.

— Senhora — disse amedrontado —, fugi para trazer-lhe graves notícias. Esta noite ouvi a combinação de D. Diego e do filho, relativamente a esta casa.

Como assim? — interrogou Madalena muito pálida.

— Sei que o Santo Ofício vai ocupar as propriedades do Sr. de Oviedo e que os Estigarríbias desejam incluir esta chácara no espólio do extinto.

— Mas esta casa me pertence  — interrompeu a filha de D. Inácio com energia.

— Queira, então, providenciar como convém.


28 A essa altura, o semiliberto mastigou as palavras, como que receoso de prosseguir:

— Mas é uma iniquidade — exclamou Madalena, convictamente.

— E não é só… — obtemperou o rapaz, reticencioso.

— Que maior infortúnio poderia sobrevir-nos?

— D. Alfonso — explicou o servo dedicado —, em palestra confidencial com o pai, ponderou que, não sendo Alcíone filha do finado, pode ser arrolada no patrimônio, como escrava; e sei que tomou essa atitude, pela atração que a mesma sempre exerceu sobre ele.

— Horrível! — exclamou a viúva tornando-se lívida — não haverá justiça para semelhantes bandidos?

— A justiça, por certo, não autoriza esses crimes, mas os meus senhores estão com os padres e será útil que a senhora tome as providências possíveis, para defesa do seu lar.


29 Enquanto o rapaz se retirava apressado, de maneira a não despertar suspeitas na casa a que servia, Madalena levou as mãos à cabeça, tentando conter o vulcão de ideias que a incendiavam. Nenhuma preocupação na sua vida continha o travo desta que ora a excruciava. Separar-se da filha, quando a viuvez já lhe havia mortificado o coração, seria condenar-se a perpétuo martírio. Reagiria contra os criminosos sem consciência. No torvelinho de suas dores, entretanto, procurou encomendar-se a Deus com sincera compunção. Que Jesus se dignasse velar por sua fraqueza de mulher, defendendo-lhe a filhinha dos lobos desalmados. O Sol já fulgurava no horizonte e o coração materno continuava em súplica silenciosa, invocando a misericordiosa proteção do Crucificado. Procurando ocultar sua aflição à serva e à filhinha, resolveu bater à porta das freiras Carmelitas, no intuito de solicitar-lhes fraternal amparo.

Em todo o tempo de sua permanência em Ávila,  †  frequentara os ofícios religiosos na Igreja de São Tomás  †  apenas duas vezes, pela dificuldade de se locomover; mas isso fora o bastante para abraçar velhas mestras, entre as quais se destacava Madre Conceição do Santíssimo Sacramento, generosa diretora do educandário onde ela, Madalena, recebera as primeiras letras.

Essa veneranda criatura, pensava a filha de D. Inácio consigo mesma, não a deixaria sem assistência.


30 Com enorme dificuldade, dada a atrofia dos pés, encaminhou-se à cidade, em companhia de Alcíone, pela manhã. Desde a indelicada recusa das amigas de sua mãe, em Paris, fizera o propósito de nada pedir em seu benefício; mas, naquela hora grave em que lhe faltava o amparo do primo, tinha necessidade de mão amiga para fazer respeitados os seus direitos. Não dispunha de outras relações, além dos laços afetivos com as religiosas que tanto a beneficiaram e acarinharam na infância.

Assaz inquieta, pediu para falar à Superiora do Convento de São José.

A velha monja, em cujo rosto as rugas marcavam invernos e padecimentos longos, recebeu-a com afabilidade e doçura, visivelmente satisfeita com a inesperada visita.

— Madre Conceição — começou dizendo acanhada e aflita —, esperava socorrer-me de vossa bondade mais tarde, quando minha filha estivesse em idade de iniciar os estudos, mas, circunstâncias imperiosas, quão imprevistas, na minha vida, obrigam-me a incomodar-vos mais cedo.

— Dize, Madalena — respondeu a religiosa com bondade natural —, não te perturbes, confia em nossa velha amizade. Desde que nos revimos, muito tenho pensado em ti, nas tuas penas angustiosas; contudo, filha, são numerosas as antigas alunas que se encontram nos sofrimentos da viuvez.

— Não venho aqui trazida por dificuldades materiais, minha boa Madre.


31 E passou a relatar as suas amarguras em face do desaparecimento do primo que a deixava em penosa situação moral, por motivo das perseguições que o vitimaram. Pausadamente, imprimindo em cada palavra a força da sua emoção, explicou quanto sabia a respeito da sentença do Santo Ofício, que levara Antero de Oviedo à suprema ruína. Em seguida, falou da maternal angústia, devido às pretensões odiosas da família Estigarríbia, em lhe extorquirem a propriedade rural e, além do mais, sequestrar-lhe a própria filha.

A velha religiosa acompanhava-lhe as palavras, tomada de singular admiração. Viu-a terminar, exausta, pálida, cabisbaixa, consternadíssima. Destacando as últimas assertivas, exclamou inquieta:

— Mas o país não está em regime de cativeiro! Como poder alguém escravizar uma criança inocente?

— Os que têm bastante dinheiro para demover os juízes — disse Madalena convictamente — certo poderão gozar o benefício das leis; mas eu sou paupérrima e minha Alcíone poderá ser levada por mãos criminosas, à revelia da justiça. Não ignoramos que se fala bastante, na atualidade, em mestiços que de nada servem, no conceito dos grandes senhores de terras, senão para os serviços rudes do Novo Mundo. E se D. Diego Estigarríbia pretender que minha filhinha seja dessa espécie de criaturas? Ele tem as arcas abarrotadas de pesetas para comprar os homens indignos. Suas violências talvez nem cheguem a constar nos processos escritos.


32 Madre Conceição tinha uma grossa lágrima nos olhos. Maternalmente, tomou as mãos da interlocutora e falou:

— Compreendo tuas angústias, entretanto…

— Será possível que não possa contar com o vosso auxílio? — perguntou Madalena atemorizada.

— É que, minha filha, trata-se de uma questão com o Santo Ofício. Nesta casa, somos muito indigentes para te auxiliar com êxito, contra inimigo tão poderoso.

E, depois de levantar-se e sondar a porta vizinha, declarou à Madalena, em voz muito baixa:

— Por buscarmos defender dois homens caluniados perante os Inquisidores, duas irmãs e eu, no mês passado, fomos açoitadas cinco vezes.

— Ah! como se permite semelhante tribunal no seio da Igreja? — indagou a filha de D. Inácio penosamente surpreendida.

A monja enxugou as lágrimas com a manga do hábito rafado e murmurou:

— Talvez, minha filha, Deus haja permitido o funcionamento dessa instituição impiedosa para que sejamos experimentados em nossa fé. Hoje em dia, considero que não existe maior cilício que o suportar a evidência de tantos crimes em nome do próprio Deus.


33 A jovem viúva começou a chorar em silêncio, mas a respeitável amiga ponderou com solicitude:

— Não te desesperes: Jesus não está pobre de misericórdia. Faze o possível por aliciar algum homem de mérito, que propugne os teus direitos. Estou certa de que o Céu nos oferecerá os meios precisos.

Madalena Vilamil despediu-se com palavras de sincero reconhecimento, mas não pôde disfarçar o desânimo quase invencível. Ao vencer a distância que a separava do teto humilde, sentia que as pernas tornavam-se mais trôpegas. Mesmo assim, quis socorrer-se das autoridades civis ou religiosas, mas a falta de dinheiro amortecia-lhe os impulsos. Os juízes, de um e de outro lado, não trabalhavam de graça. Os processos não se movimentavam sem as molas reais.

Alcíone seguia-lhe os passos muito admirada das suas lágrimas e do seu mutismo. Conduzida pela mão, a delicada criança parecia ansiosa por uma oportunidade que lhe permitisse confortar o espírito materno. Assim que atravessaram as muralhas, já no caminho empedrado, de regresso ao lar, perguntou com a sua curiosidade infantil:

— A senhora não disse que íamos a outra casa?

— Não é possível, minha filha.

— Por que?

— Não temos a chave de ouro com que poderíamos abrir a porta, concluía Madalena, como a falar consigo mesma.


34 E passou o resto do dia mergulhada em dolorosas cismas. Via-se, na imaginação atirada no vórtice do destino. O Santo Ofício tudo lhe arrancaria, tudo… A granja pequenina, cultivada com tantos sacrifícios, seria arrebatada por verdugos cruéis. Mas, quando meditava na eventualidade de separação da filha, profunda revolta dominava-lhe o coração. Seria a derradeira prova da sua dedicação maternal, porque a morte, indubitavelmente, viria nesse instante enregelar-lhe as veias.

Enquanto Dolores trabalhava no quintal, intrigada com o pranto copioso da ama, Alcíone permanecia no aposento materno, procurando confortar Madalena, com suas observações piedosas, embora infantis.

O crepúsculo desceu, pesadamente e, à noite, João de Deus reapareceu. Depois de se informar do resultado da visita ao convento de São José, falou à desolada senhora, deixando-lhe entrever novas esperanças:

— D. Madalena, conheço um padre que talvez nos possa valer.

— Quem é? — indagou ansiosamente a interpelada.

— É o padre Damiano, que oficia na igreja de São Vicente.  †  Ele tem sido meu amigo nas ocasiões difíceis, é bem possível que resolva satisfatoriamente o caso. Se a senhora quiser, chamá-lo-ei ainda hoje mesmo, porque D. Alfonso deverá vir aqui amanhã, depois do meio dia, para lhe dar conhecimento do odioso mandato.

— Oh! sim! — exclamou reconhecida — vai sem demora, conversarei com esse homem de Deus.


35 O rapaz saiu, e, quando o relógio marcava nove horas, regressava em companhia do eclesiástico, recebido por Madalena com inequívocas demonstrações de reconhecimento e apreço.

Padre Damiano era homem dos seus cinquenta anos e pela expressão do olhar, como pelas cãs prematuras, dava conta de suas penosas lutas.

Em breves instantes, estabelecera-se entre ele e os presentes os laços cariciosos da intimidade e da simpatia. Ouviu com atenção os informes da viúva Davenport, entendendo-lhe as razões afetuosas, como se ouvisse uma filha. A narrativa dos seus sofrimentos infundia-lhe respeito paternal. Em breve, trocavam impressões e já pareciam velhos conhecidos. Também estivera em Paris por ocasião da varíola  †  de 1763 e por sinal, também sofrera a enfermidade dolorosa, num estabelecimento religioso. Madalena Vilamil estava igualmente satisfeita. A palavra do interlocutor parecia-lhe de um amigo sincero, que tardara a aparecer. Historiando os incidentes da sua viuvez, o Padre prestou maior atenção ao caso e sentenciou:

— É muito estranhável que a senhora tenha lutado com tão infausto destino, mediante uma simples notícia. Nunca recebeu informações mais positivas da América?

— Nunca.

— Também — continuou —, é preciso considerar a soledade em que ficou, lá na França. A morte dos pais, a enfermidade rebelde, a necessidade imperiosa de atender à recém-nascida…

— Sim — explicou Madalena agradecida ao seu afetuoso interesse —, mas não renuncio ao meu velho ideal de uma excursão à colônia do norte. Não desejo morrer sem obter as últimas notícias de Cirilo.


36 O religioso fez um sinal de aprovação e acentuou:

— Sempre acalentei o desejo de compartilhar dos trabalhos missionários na América e, se algum dia o conseguir, ofereço-me a levá-la, com a sua filhinha.

Madalena Vilamil agradeceu com um grande sorriso. A palestra prosseguiu, animadamente, até que a hora avançada determinava as despedidas. Padre Damiano referiu-se à sua disposição sincera de enfrentar a ousadia criminosa dos Estigarríbias e prometeu que ali estaria no dia seguinte às doze horas. E como a viúva quisesse reiterar os agradecimentos, muito comovida, ele a interrompeu, dizendo:

— Não se dê ao trabalho de manifestar gratidão. Neste mundo, somos devedores uns dos outros e, neste momento, tenho a impressão de estar resgatando uma dívida.

E retirou-se acompanhado por João de Deus, enquanto a pobre senhora experimentava um grande alívio e desafogo à mente atormentada.


37 No dia seguinte, à hora aprazada, o eclesiástico franqueava a porta e aguardava os acontecimentos.

Nas primeiras horas da tarde, D. Alfonso Estigarríbia aproximou-se acompanhado por seus homens, a fim de imprimir certo aparato ao feito. Notando a presença de um sacerdote na casa suposta indefesa, não pôde esconder o desapontamento; mas Damiano, querendo conhecer todo o ardil da encenação cruel, tomou atitude humilde, fez um gesto de extremo desinteresse pela causa e exclamou, após a primeira saudação:

— Entrai, meus filhos! Viva Deus e abençoado seja o nosso Santo Padre.

Encorajados com semelhante acolhida, D. Alfonso e os asseclas cobraram alento e passaram a ler o torpe mandato, com ares de triunfo. O filho de D. Diego fez a leitura solene, pausada, enquanto Madalena e Dolores ouviam a sentença, excessivamente pálidas. Terminada a intimação, o moço Estigarríbia passou a explicar que a granja deveria ser desocupada dentro de três dias e que, havendo ali uma criança mestiça, trazida por Antero de Oviedo, competia ao Santo Ofício decidir do seu destino, pelo que exigia a sua entrega imediata.


38 De posse de todos os fios da perversa meada, Padre Damiano fechou o semblante e declarou com enérgica serenidade:

— Conhecemos a força do Tribunal que assim ordena, mas somos obrigados a declarar que existe lamentável engano a corrigir. A Inquisição terá tido motivos para condenar nosso parente Antero de Oviedo, coisa que não pretendemos discutir; consideramos, porém, que a sentença de confisco já foi executada com a ocupação de suas casas em Ávila, e de outras propriedades em Madrid. Julgamos, ainda, que se isso não bastasse, o condenado já pagou duramente as suas faltas com a morte.

D. Alfonso ficou lívido.

— A que engano vos referis? — indagou.

— Esta chácara não pertencia ao réu.

— As provas? — acudiu o chefe da expedição, contrafeito.


39 A um gesto do religioso, Madalena Vilamil trouxe o documento da doação, firmado pelo extinto.

— Mas, evidentemente — exclamou D. Alfonso — esta declaração não tem efeito legal. É simples transação entre parentes. O sangue é o mesmo.

— Julgais, então — continuou Damiano —, que as pessoas honestas possam responder por delitos dos irmãos consanguíneos? Jesus era o Salvador e não impediu que Judas aparecesse na reduzida família dos seus discípulos.

Ante a inesperada opugnação, o filho de Dom Diego mordeu os lábios, encolerizado:

— Deveis saber que a condenação do Santo Ofício engloba a parentela.

— Não ignoro — explicou o padre — que o Santo Ofício muito cruelmente persegue o condenado na pessoa dos descendentes, mas nós não somos da estirpe de Antero de Oviedo.

Incapaz de rebater os argumentos do interlocutor, o chefe da diligência acentuou:

— Consultaremos o bispo D. Leôncio Molina.


40 Compreendendo que o rapaz aludia ao parente, cheio de influência política, Damiano acrescentou:

— E nós indagaremos a razão pela qual a família Estigarríbia anda requisitando crianças livres nas cidades independentes da Espanha. A Corte nos informará, quanto a isso.

O vizinho fez menção de retirar-se com os companheiros, mas antes de o fazer, o sacerdote concluiu:

— D. Alfonso, voltai na paz de Jesus. Esta casa está disposta a viver cristãmente na vossa vizinhança, mas não esqueçais que tendes uma alma para prestar contas a Deus.

A expedição partiu cabisbaixa, enquanto Madalena se retirava para o interior e beijava o crucifixo que sua mãe lhe havia dado, agradecendo a Jesus aquelas inefáveis consolações.


.Emmanuel


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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