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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Religião à luz do Espiritismo

TOMO III — ESPIRITISMO, O CONSOLADOR PROMETIDO POR JESUS
Módulo III — Os vícios e as Virtudes

Roteiro 7


Conquista e desenvolvimento de virtudes


Objetivo: Explicar como adquirir e desenvolver virtudes, segundo a orientação espírita.



IDEIAS PRINCIPAIS

  • As virtudes se adquirem, em geral, por meio de provações e repetidos aprendizados, nas sucessivas experiências reencarnatórias, pois a […] dor, a luta e a experiência constituem uma oportunidade sagrada concedida por Deus às suas criaturas, em todos os tempos; todavia, a virtude é sempre sublime e imorredoura aquisição do espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos seus valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio. Emmanuel: O Consolador, pergunta 253.

  • A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem […]. Allan Kardec: O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XVII, item 8.

  •  […] Mais vale pouca virtude com modéstia, do que muita com orgulho. Allan Kardec: O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XVII, item 8.



 

SUBSÍDIOS


Vimos no Roteiro anterior que a aquisição e o desenvolvimento de virtudes exigem esforços e firmeza de propósitos. Que as virtudes não são concessões divinas, um dom ou graça fornecidos por Deus a alguns Espíritos. São conquistas individuais, alcançadas por meio de provações e repetidos aprendizados, em sucessivas experiências reencarnatórias. Emmanuel assevera que a


[…] dor, a luta e a experiência constituem uma oportunidade sagrada concedida por Deus às suas criaturas, em todos os tempos; todavia, a virtude é sempre sublime e imorredoura aquisição do espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos seus valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio. (1)


Para o Espiritismo, todas


[…] as virtudes têm seu mérito, porque todas são sinais de progresso no caminho do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária no arrastamento dos maus pendores. Mas a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem segundas intenções. A mais meritória é a que se baseia na mais desinteressada caridade. (2)


A aquisição de virtudes exige, pois, empenho e persistência. Não é algo que se consegue de um dia para outro, nem é obtido por meio de graça ou concessão divina. Neste sentido, os ensinamentos espíritas são claros, “[…] dizendo que aquele que possui virtude a adquiriu por seus esforços, em existências sucessivas, despojando-se pouco a pouco de suas imperfeições. A graça é a força que Deus concede a todo homem de boa vontade para se livrar do mal e fazer o bem. (3)


1. Aquisição de virtudes


Importa considerar, contudo, que há pessoas que não fazem muito esforço para desenvolver virtudes, praticando-as naturalmente, enquanto que, em outras, o processo é sacrificial. Uma vez que não há concessão divina, como ensina o Espiritismo, o que se passa, então? Eis o que os Espíritos da Codificação responderam a Kardec, quanto este lhes fez pergunta semelhante: (4)


As [pessoas] que não têm que lutar são aquelas em quem o progresso já está realizado; lutaram outrora e triunfaram. É por isso que os bons sentimentos não lhes custam nenhum esforço e suas ações lhes parecem muito naturais; para elas o bem se tornou um hábito. Deve-se, pois, honrá-las como a velhos guerreiros, pela posição elevada que conquistaram. Como ainda estais longe da perfeição, esses exemplos vos espantam pelo contraste e os admirais tanto mais, quanto mais raros são. Ficai sabendo, porém, que nos mundos mais adiantados do que o vosso, o que entre vós constitui exceção, lá é a regra […]. Assim se dará na Terra, quando a Humanidade se houver transformado e quando compreender e praticar a caridade na sua verdadeira acepção.


Para nós, Espíritos imperfeitos, mas que desejam melhorar-se, é preciso aproveitar as oportunidades que Deus nos oferece, cotidianamente, ainda que revestidas na forma de provações, a fim de que possamos desenvolver virtudes.

Neste sentido, ouçamos o conselho do apóstolo Pedro, tão a propósito:


Por isso mesmo, aplicai toda a diligência em juntar a vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e amor fraterno a caridade. (2 Pedro, 1:5-7. Bíblia de Jerusalém)


A recomendação de Pedro nos faz refletir que o desenvolvimento de, virtudes envolve a melhoria integral do ser humano, independentemente do ` contexto em que este se situe: no lar, no ambiente profissional, no templo religioso, nos locais de lazer, etc. A mensagem demonstra que a aquisição de um valor moral, ou virtude, leva á conquista de outro, e, assim, sucessivamente, até que o indivíduo se transforme em pessoa de bem.

Assinala o apóstolo que o primeiro desses valores é a fé. Assim, é preciso acreditar, firmemente, que a bondade e a misericórdia divinas nos amparam em qualquer situação. O segundo refere-se ao conhecimento que, por iluminar a consciência, ensina fazer o que é certo perante os diferentes desafios da vida. Por sua vez, sabendo o que fazer, o conhecimento produz o autodomínio, que nada mais é do que a vontade inteligentemente administrada. O terceiro valor, resultante da fé e do conhecimento, é a prática da perseverança que, por oferecer fortaleza moral, tempera o caráter, tornando-o mais forte, ainda que a pessoa esteja submetida a grandes dificuldades. O quarto valor é a piedade, ou seja, a capacidade de ter misericórdia para com o sofrimento do próximo. A pessoa piedosa amplia a sua capacidade de empatia, procurando, em qual quer situação, colocar-se no lugar do outro. Aprende, então, a não julgar as ações do próximo, condição necessária para a aquisição e desenvolvimento do amor fraterno, que é a base da prática da caridade, a última virtude, e que coroa as demais.

Emmanuel analisa mais o assunto, tendo como base a mesma citação de Pedro, mas traduzida por João Ferreira de Almeida, que consta assim: […] E à ciência temperança, e à temperança paciência e à paciência piedade. (2 Pedro, 1:6.)


Aprender sempre, instruir-nos, abrilhantar o pensamento, burilar a palavra, analisar a verdade e procurá-la são atitudes de que, efetivamente, não podemos prescindir, se aspirarmos à obtenção do conhecimento elevado; entretanto, milhões de talentosos obreiros da evolução terrestre, nos séculos que se foram, esposaram a cultura intelectual, em sentido único, e fomentaram opressões que culminaram em pavorosas guerras de extermínio. Incapazes de controlar apetites e paixões, desvairaram-se na corrida ao poder, encharcando a terra com o sangue e o pranto de quantos lhes foram vítimas das ambições desregradas. Toda grandeza de inteligência exige moderação e equilíbrio para não desbordar-se em devassidão e loucura. Ainda assim, a temperança e a paciência, por si só, não chegam para enaltecer o lustre do cérebro. […] O apontamento do Evangelho, no entanto, é claro e preciso. Não vale a ciência sem temperança e toda temperança pede paciência para ser proveitosa, mas para que esse trio de forças se levante no campo da alma, descerrando-lhe o suspirado acesso aos mundos superiores, é necessário que o amor esteja presente, a enobrecer-lhes o impulso, de vez que só o amor dispõe de luz bastante para clarear o presente a santificar o porvir. (5)


Em outra oportunidade, o benfeitor espiritual assinala, fazendo o fechamento do tema:


[…] É forçoso coroar a fé e a bondade com a luz do conhecimento edificante. Todos necessitamos esperar no Infinito Amor, todavia, será justo aprender “como”; todos devemos ser bons, contudo, é indispensável saber “para quê”. Eis a razão pela qual se nos impõe o estudo em todos os lances da vida, porquanto, confiar realizando o melhor e auxiliar na extensão do eterno bem, realmente demanda discernir. (6)


2. O desenvolvimento de virtudes


Sem sombra de dúvida, as virtudes são qualidades desenvolvidas pelo Espírito ao longo de suas vivências reencarnatórias e em suas estadias no plano espiritual. Como o Espírito jamais retrograda, sempre que ele retorna ao plano físico, traz consigo o produto de suas conquistas, tanto no plano intelectual como no moral. Como o processo evolutivo é continuo, desenvolve aprendizados que ainda necessitam de burilamento. É assim que, retornando à encarnação, passa pela fase de infância que lhe oferece melhores condições para adquirir e/ou desenvolver virtudes.


[…] Os Espíritos só entram na vida corporal para se aperfeiçoarem, para se melhorarem. A fragilidade dos primeiros anos os torna brandos, acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir. É quando se pode reformar o seu caráter e reprimir seus maus pendores. Esse é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual terão de responder. […]. (7)


Se a criança recebe boa educação no lar, sobretudo a moral, seu Espírito é fortificado e a sua conduta se revela de acordo com os princípios do bem, principalmente se já ocorreu aprendizado anterior, refletidas em suas boas tendências. A repetição dos bons atos, em nova reencarnação, tem o poder de fixar não só competências intelectuais, mas em desenvolver valores morais, embrionários ou não.

A importância da educação dos sentimentos nas crianças, que resulta a aquisição de virtudes, é destacada pelo confrade Jason de Camargo quando afirma: “[…] as crianças aprendem aquilo que vivem.” (8)


Se uma criança vive com críticas, ela aprende a condenar. Se uma criança vive com zombarias e ridículo, ela aprende a ser tímida. Se uma criança vive com vergonha e humilhação, ela aprende a se sentir culpada. Se uma criança vive com incentivo e estímulo, ela aprende a ter e sentir confiança. Se uma criança vive com retidão e imparcialidade, ela aprende a conhecer a justiça e a ser justa. Se uma criança vive com aceitação, amizade e amor, ela aprende que o mundo é um ótimo lugar para se viver. (8)


Importa considerar que nem sempre é suficiente a pessoa ter nascido com a inclinação para o bem: é preciso que a sua vontade em se transformar em pessoa melhor seja exercitada constantemente, de forma que o desejo de ser bom se evidencie em ações concretas: “A virtude não é veste de gala para ser envergada em dias e horas solenes. Ela deve ser o nosso traje habitual A virtude precisa fazer parte da nossa vida, como alimento que ingerimos cotidianamente, como o ar que respiramos a todo instante.” (9)


A virtude não é para a ostentação: é para uso comum. É falsa a virtude que aparece para os de fora, e não se verifica para os familiares. Quem não é virtuoso dentro do seu lar, não o será na vida pública, embora assim aparente. Ser delicado e afável na sociedade, deixando de manter esses predicados em família, não é ser virtuoso, mas hipócrita. A virtude não tem duas faces, uma interna, outra externa: ela é integral, é perfeita sob to dos os aspectos e prismas. Não há virtude privada e virtude pública: a virtude é uma e a mesma, em toda parte. O hábito da virtude, quando real, reflete-se em todos os nossos atos, do mais simples ao mais complexo, como o sangue que circula por todo corpo. As conjunturas difíceis, as emergências perigosas, não alteram a virtude quando ela já constitui o nosso modo habitual de vida. […].


Ainda segundo Jason de Camargo, a técnica para solidificar qualquer virtude é “[…] aprendê-la, analisá-la e repeti-la nas atividades práticas do cotidiano. […] Quanto mais vão sendo repetidos os atos relativos à mesma perfeição, tanto mais fácil será praticá-los com esforço cada vez menor, até a liberação ou dispensa de qualquer energia consciente. […]. (10)


[…] O hábito da virtude é fruto de porfiada conquista. Possuí-la é suave e doce. Praticá-la é fonte perene de infinitos prazeres. A dificuldade não está no exercício da virtude, mas na ~ oposição que lhe faz o vício., que com ela contrasta. É necessário destronar um elemento, para que o outro impere. O vício não cede lugar sem luta. A virtude nos diz: eis-me aqui, recebei-me, dai-me guarida em vosso coração; mas lembrai-vos de que, entre mim e o vício, existe absoluta incompatibilidade. Não podeis servir a dois senhores. (11)


O desenvolvimento de virtudes representa significativo desafio na superação das próprias imperfeições e dos impulsos dominadores das paixões inferiores. Nessa situação, o homem deve usar a razão, mantendo-a sob o seguro controle da vontade, para que um roteiro de melhoria espiritual seja planejado e seguido.

Segundo Emmanuel, a vontade exerce fundamental papel, considerando que a “[…] vontade é gerência esclarecida e vigilante governando todos os setores da ação mental. A Divina Providência concedeu-a por auréola luminosa à razão, depois da laboriosa e multimilenária viagem do ser pelas províncias obscuras do instinto. […]. (12)

Ser virtuoso significa desenvolver bons hábitos, ter senso de dever e pautar as ações de acordo com o bem. Esta é a regra, e não há como fugir dela: “[…] Virtude sem proveito é brilhante no deserto. Inteligência sem boas obras é tesouro enterrado. […] Em qualquer parte a vida te conhece pelo que és, mas apenas te valoriza pelo que fazes de ti.” (13)

O Espírito André Luiz nos lembra que a virtude “[…] não é flor ornamental. É fruto abençoado do esforço próprio que você deve usar e engrandecer no momento oportuno.” (14)

Acrescenta, por fim, Emmanuel:


Virtude, quanto acontece à pedra preciosa lapidada, não surgirá no mostruário de nossas realizações sem burilamento e sem sacrifício. Se desejamos construí-la, em nossos corações, é imprescindível não nos acovardemos diante das oportunidades que o mundo nos oferece. […] Recordemos que o trabalho e a luta são os escultores de Deus, criando em nós as obras-primas da vida. Quem pretende, porém, a fuga e o repouso indébitos, certa mente desistirá, por tempo indefinido, do esforço de aprimoramento, transformando-se em sombra entre as sombras da estagnação e da morte. (15)


ORIENTAÇÕES AO MONITOR:

  • Pedir à turma que faça leitura silenciosa do Roteiro de Estudo, assinalando pontos considerados importantes. Após a leitura, orientá-los a emitir opiniões, em plenário, sobre os destaques selecionados.

  • Fazer breve explanação, focalizando as principais idéias desenvolvidas em todo o Roteiro. Em seguida, dividir a turma em pequenos grupos, entregando a cada, duas perguntas relacionadas à aquisição e/ou desenvolvimento de virtudes. As perguntas devem ser lidas e analisadas pelos participantes, e respondidas com base nos conteúdos no Roteiro.

  • Ouvir as conclusões, esclarecendo pontos, se necessário.

  • Fazer o fechamento do estudo destacando idéias desenvolvidas pelo Irmão X (Espírito Humberto de Campos) no texto Nos limites do céu, inserido em anexo.

    Observação: informar aos participantes que o assunto da próxima reunião será desenvolvido por um expositor, especialmente convidado. Recomendar-lhe leitura reflexiva prévia do assunto (As virtudes segundo o Espiritismo), a fim de que as perguntas ou dúvidas que serão apresentadas ao palestrante revelem entendimento doutrinário.



 

ANEXO


Nos limites do Céu

(Irmão X)




Referências:

1. XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008, pergunta 253, p. 206.

2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Questão 893, p. 535.

3. Idem - O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Introdução IV, item XVII, p. 52.

4. Idem - O Livro dos Espíritos. Op. Cit. Questão 894, p. 536.

5. XAVIER, Francisco Cândido. Palavras de vida eterna. Pelo Espírito Emmanuel. 33 ed. Uberaba [MG]: CEC, 2005. Capítulo 121, p. 258-259.

6. Idem - Capítulo 122, p. 261.

7. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Op. Cit. Questão 385, p. 281.

8. CAMARGO, Jason de. Educação dos sentimentos. Porto Alegre: Letras de Luz, 2001. Capítulo: A psicologia aplicada, p. 102.

9. VINÍCIUS. Nas pegadas do mestre. 12. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Capítulo: A virtude, p. 21.

10. CAMARGO, Jason de. Educação dos sentimentos. Op. Cit. Capítulo 15, p. 178.

11. VINÍCIUS. Nas pegadas do mestre. Op. Cit., p. 22.

12. XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 18. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Capítulo 2, p. 13-14.

13. Idem - Bênção de paz. Pelo Espírito Emmanuel. 7. ed. São Bernardo do Campo: GEEM, 1981. Capítulo 54, p. 135.

14. Idem - Agenda Cristã. Pelo Espírito André Luiz. 43 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, Capítulo 29, p. 95.

15. Idem - Correio fraterno. Por Espíritos Diversos. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998. Capítulo 56 (Virtude, mensagem do Espírito Emmanuel), p. 129 130.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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